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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

as 17 melhores poesias

Notei subitamente que esse ano este blog vai completar 5 anos.
Então decidi selecionar dentro da feijoada de postagens - expressão que aqui quer dizer "enorme concentração de porcaria que no todo fica charmoso mas individualmente é um nojo só" - aquelas poesias - e especialmente as poesias, que foi o que primeiro me motivou a escrever - que eu ainda achasse que possuem algum brilho, alguma graça, alguma coisa qualquer e não fosse apenas um desperdício completo de tempo. Foi difícil. E não porque sobrava. 17 foi o número procurado, afinal, esse é o nome do blog: 17 poesias boas (pra mim) em 4 anos (selecionei as escritas até último dezembro) parece um número justo - palavra que aqui quer dizer "humildemente de bom tamanho" - e por isso, eu fico feliz - palavra que aqui quer dizer "simplesmente olhando reto".
Espero que aos inúmeros fãs desse blog este esforço sirva como aqueles capítulos de série que resgatam os anteriores e que quando a gente acompanhava as séries pela televisão apenas faziam algum sentido, pra você rever aquelas cenas queridas, mas que hoje em dia, com o advento do download, do VOD e dos seriados em DVD eles acabam sendo meio bobocas; e, para aqueles que se aventuram há pouco tempo por este "ateliê", que a nova etiqueta com os top17 poemas seja como aqueles álbuns meio jacus de greatest hits que a gente costumava comprar quando era caro comprar CDs e você só queria aquelas músicas mesmo, mas hoje em dia é meio inútil, porque dá pra baixar essas canções individualmente, ou simplesmente ligar o lance de músicas da NET na televisão, que só toca esses hits mesmo, ou baixar um torrent com a discografia completa e ir caçando os hits.

obrigado,
Ian Capillé

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Abarca

A barca a balançar
deixa o ritmo amargurado;
Ok, a vista é linda,
mas nada mais brega que uma vista linda
que a baia de Guanabara e as montanhas do Rio banhadas de luz de final da tarde depois de uma longa chuva, lavadas de ciano, a leveza do branco azulado do céu com o azul acinzentado do mar; brega, poxa.
As luzes da cidade começam a se acender,
os postes se preparam pra noite
Sete da noite
Filmagem noturna cansada
Essa viagem é só amargura.
E a cura está nela
Na água gelada
Funda da Baía de Guanabara
Mergulha

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Rockland

eu não estou sóbrio
quando a escada se desfaz em telhado, vazio, inteiro, sacada para um vale cheio de neblina, onde os monstros do crepúsculo despertam como anjos da noite, sagrados músicos iluminados por postes cheirando à maconha e perfume, alisando-se com olhares e cerveja, prevendo prevendo prevendo

eu não estou sóbrio
quando a escola é feita só de repetições, verbetes, conceitos, fórmulas, cifras, símbolos, certezas, decorebas, amebas, átomos, quando a flor não desabrocha sem sentido, sem só sentir-se flor, quando eu tenho que explicar porque eu te olho mais que o mais e te desejo ardentemente sem nunca nunca nunca demostrar um pentelho disso

eu não estou ébrio
quando o meu cabelo se desfaz em cores, cortes, texturas, desvios, meu rosto se desfigura em sorrisos, barbas, espinhas, navalhas erradas rasgões buracos, sebos, sobrancelhas, cravos, gorduras, pelos, peles e mais peles, quando sou só pele e superfície e não danço só com as pernas, que se transformam como uma pajelança, atiradas do alto de saltos, travestis comendo fezes nos cantos

eu não estou ébrio
quando eros me dá seu arco, sua flecha, seu estalo e diz lambendo meu ouvido num sussurro quase inaudível não fosse a minha ejaculação precoce - semelhante ao ribombar do motor de um ar-condicionado quando reata no tranco (a geladeira também faz isso) no meio do sono - que eu estou um fruto apodrecendo a cada dentada

eu não estou lúcido
quando eu não me lembro de quase nada que me marcou ou me marca, quando eu te vejo, desejo, mas sou incapaz de fazer qualquer ato a respeito, desrespeito a mim mesmo, me atrevo a não me atrever a nada, fico imóvel, impassível, impotente, inimportante, tão drástica e dramaticamente inútil que é redondamente impossível - seria clínico, inclusive, se não fosse impossível - que alguém, você, note qualquer perturbação no ar, qualquer leve suspiro afetivo - é um zumbi que caminha, escutei, um zumbi que caminha inteligente

eu não estou lúcido
quando me perco na sua casa, me entrevo num caos de ladrilhos na parede, de tacos no chão, de cozinha sala quarto banheiro, de desenhos rabiscados, de luz fraca, cômodo cheio, cheiro enjoativo, bebida à rodo, fumaça de cigarro, reflexos na tevê, garotada falando alto, falando de cinema, olhar 43, gente desenhando retratos de gente que posam sem estar posando, são todos sempre poses, lindos anjos de juventude frágil espalhados como pétalas mortas sobre um chão de madeira

eu não estou bêbado
quando me correspondo em silêncio com a sua respiração pra cima e pra baixo, quando o mínimo toque levanta arrepios na espinha, erguem o corpo e é como se tivesse a sua vagina na minha mão e tremo, tenho calafrios enormes, clínicos, talvez, e me reergo herege ereto eriçado errado fraco aliviando minha comunhão secreta em versos, ou em sonhos, ou em tétricas tentativas vãs de ser mais alguma coisa a mais, como um possível poeta, um poetinha, um poeta menor, quando me imagino um rock star, admirado, e as gengivas se torcem na lascívia noite dos olhos fechados, de todos os olhos seus fechados

eu não estou bêbado
quando você dorme do meu lado e eu te ataco calado com o martírio sacrificial dos brochas e todos se imaginam em outro lugar, chamam isso de sonho, e nele só queremos, somos feitos de desejos primevos, de névoa e dança, de vermelho amargo, de réstia fagulha de jazz, de moderna atração pela cidade, de labirintos de palavras e livros, de viagens de verdade e viagens de mentira, de imaginados amigos, de virtuais coleções aleatórias espetaculares, de descaminhos, de desvios pelo fio da navalha clara do sexo jovem, de torrentes e mais torrentes de recalques mútuos comuns gerais (imagino) santificados pela matéria esgarçada do olhar mais puro de um eu para um outro você

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

caravela

estava nela a caravela nela
a cara na chuva, a chuva na passarela
era bela a tempestade,
mela
tons de chuva em aquarela

nossa nave era uma janela
o inferno na terra
no mar o fogo, a chama, estrela
o verso gritado de um trovão
chão
oceano lambendo vagas,
língua nos lábios dela,
aqueles lábios
grandes lábios
fundos aliados, profundezas da perna

são ondas os olhos dela
aquela dita antiga ressaca
telúrica américa ereta
o mastro da caravela
aponta o teto numa prece
torce aquece espreme a água sua
sua vela estufa profana
duas velas pro céu aceso

desprezo no canto da boca do mar
assassino ancestral, irmã, incesto monstruoso
polígona estrutura
antígona
morre e fratura
cai no deque, dura

perdura!
vive! avança!
frígido olhar sem esperança,
a tormenta te grita
a onda te lambe, língua vaga, sem dança
ah! pau duro quebrado
ventos frios do seu lado
chuva chupa a proa, esse brocado
de trás, de frente, de lado

sem força,
sem corda,
sem vela,
sempre a força primeva
perdura na vigília
foi-se o sonho apaixonado
veio a insônia eterna

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Fogo

Todos os fogos
Nos meus olhos visíveis
as cores geladas dos trópicos
o fogo

Não é que eu aprove
Coca-colas molotov
mas também não escove pichação mole

nada de hipocrisia da moral tele-mares
Palavras débeis
bradescos protestos anarquia
Anorexia dos nexos
esses issos e nadas
Decapitação e esquartejamento de tiradentes
exibimos corda e carne no museu
na televisão o vírus da paz branca e suja
Somos o novo velho
Natimortas moscas

É melhor abortar ou ser estéril?

O grito virtual das massas
O choro animal das turbas
Fogo dança nas avenidas
Vamos comê-lo

Sem folhas globos estados
O carinho do fogo cruzado de flores e fumaça
Mais cosquinhas sangrentas e humanas
Meu corpo quer crescer, porra
O céu que o cruzeiro resplandecia de fogos mil cem vezes

O tira atira eu me atiro nos tiros
e tiro o que resta da minha testa magra
os miolos removo com as mãos
exterminate all rational thought
sou só a cinza desse beijo

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Da janela do ônibus

Da janela do ônibus eu vi o Rio passando
Escorria como ressaca
até as poças do Aterro.
Eu te liguei e você atendeu
E a sua calma era um berro
já que não tem mais você e eu

Da janela do ônibus eu vi o Rio chorando
Escorria como samba
e molhava Botafogo.
Eu liguei pruma amiga querida
e ela me ouviu e veio logo
porque é vindo e vendo que é a vida

Da janela do ônibus eu te vi se molhando
Escorria como criança
de blusa branca e short rosa.
Eu te vi e fiquei te vendo
sabendo que você está toda prosa
pois minha poesia aguou no relento

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Acontece

Sem amigos, irmãos, namorada
Sem eira, nem beira,
Sem nada.

Nem um piscar de adeus
Nem eu e você,
Nem você, nem eu.

O nada aconteceu
Sem final romântico
Sem estrelas, só o Atlântico.
O verão inverneceu.

O que me aconteceu?
Seu seio virou palma.
Nem tripas, nem alma,
Sem você, sem eu.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O que ela diz quando o vento chora

Aquilo que entorta o mundo,
que entorna os mares;
a nave que voa fundo
e que aspira o céu.

Move-me a ventania do coração;
alma penada e rima perdida -
duna do corpo, suada e lambida:
move-me o vento dessa prisão

Bailarina de furacão,
a vida se arrepia
na brisa ou na ventania
no sopro ou no tufão

E a nota se faz batida
e o ritmo se faz noção
quando o choro do vento vem vindo
cheio de premonição

Então, a vida se revolta
São ventos de revolução!
As ondas viram viagem,
as rimas viram balão

E de vento em vento,
inventa-se uma solução.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

soneto sem sonho

O almirante olhava a onda do mar
batendo no casco do seu navio
como suspiros em um rodopio
talhando com sal o seu navegar

E chorou com um suspiro assobio
serenando as saudades do seu solo
-descobridor, gaúcho, marco polo
atravessando o mar como quem navega um rio

Toda a prata, pau-brasil ou mesmo ouro
lhe eram avessos do maior tesouro
que, enterrado, nunca reaveria

Em cima, a cruz marcava feito um xis
lembrando que ali foi feliz
uma amada que, sem sonhar, dormia

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Apoetando o lápis

Fazer poesia
é saber que cada verso que lhe escapa
a cabeça
se estupidesse no papel
inexoravelmente

por isso,
melhor pensar tapado
e fazer feio de qualquer jeito
do que pensar espertadamente
e esburrecer.

A gente faremos poema de casebre.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sol do fim de tarde

O sol do fim da tarde
entrava lateralmente lá em casa
engatinhando pelo chão de madeira
que nem o nosso gato

e eu dizia pro verão entrar
que fizesse do chão sua casa também
sem envergonhas, sem timidezas
e esquentasse nossas longas férias no play

podia ser de piscina, fazendo rodamoinho
ou fazer cidades de lego no canto do corredor
- as vezes a gente se vestia diferente
e gravava com a câmerazinha do meu irmão mais velho

o mais legal era ter muito tempo
cheinho de sol, que invadia nossa casa
e alegrava os saltos do nosso gato
que nem faz com os saltos das crianças

sábado, 13 de março de 2010

Acidentado

O circo chegou num barco
e de cara
a zona portuária
virou o point da galera indie

Traziam - o circo, não os indies -
barris e barris de pólvora
feitas no Paquistão
- fogos de todas as cores!

"Pra maiores de dezoito anos"
dizia a classificação etária
mas claro quer rolou um montão
de gente com identidade falsa...

Era dezoito anos
só porque a princesa Bradubuldur
dançava nua em pêlos
entre véus, ventres e bolhas de sabão

O show começava com uma banda
de rock muito underground
composta por cinquenta e um caras e meio
(porque um deles não tinha pernas)

Luzes e fogos, entram os animais!
Dumbo e Ganesh, os elefantes;
Mickey, Minie, e os pulantes de Hamelin
Nero, Pumba, Tião e suas fezes!

Equilibrava-se, quixote, o espantalho
numa corda, em cima
da bicicleta de Duchamp
com seus pés de curupira

Depois, surfando numa piscina
de jacarés cheios de borboletas nas bocas,
veio o dotado domador David,
que matou Golias no fim do seu número;

Trezentas mil quatrocentas e doze
pulgas pululavam pelos pirulitantes trapezistas
nus e cegos, que declamavam
cantos gregorianos e poemas de Gregório de Mattos;

Do céu de lona choveram fios prateados,
quando as equilibritas virgens
se masturbaram de cabeça pra baixo numa corda bamba
ao som de Atom Heart Mother;

Sete carpideiras bêbadas desmoronaram o público
enquanto existencialistas se contorciam
dentro de suas prisões de liberdades
e frases nietzschianas foram encontradas dentro das pipocas

Os Cavaleiros do Apocalipse baixaram
em médiuns na platéia,
e o espírito de Caim matou todos
que se chamavam Abel - ou Abelardo

Então saiu um mágico do chão
e, como truque final,
fez o dinheiro de todos aparecer
em suas cuecas e meias!

Citônio saiu transformado!
Sentia-se cheio de cidade - acidentado!
(porque não pode ser acidadado, né?)
Citônio: acidentado pelo circo!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Uma mulher é uma mulher

Nós que nos amávamos tanto é um filme lindo
Jules e Jim também é um filme lindo
E eu fico imaginando quantos filmes lindos já foram feitos
E quantos poemas lindos já foram feitos...

As mulheres são diferentes
mas você é a mais diferente
Todas as mulheres do mundo também é um filme lindo
Queria me marcar a fogo com a brasa do seu sorriso...

domingo, 22 de novembro de 2009

Menta e tabaco

Menta e tabaco.
Pelo primeiro, me orgulho;
pelo segundo, me mato.
Menta e tabaco.

Menta e tabaco.
Está escuro como um breu,
parece que caí em um buraco.
Menta e tabaco.

Mentabaco.
Que beijo é esse que me mordeu?
Morreu o sonho e ficou o fato.
Mentabaco.

Mentabaco:
fusão do quente, com o frio meu:
a sua essência no meu palato.
Mentabaco.

Menta-baco.
Perdi meu norte, que aconteceu?
Perdi minha roupa, sou puro tato:
Menta-baco.

Menta-baco.
Meu corpo forte, ali morreu,
meu devaneio, ficou no espaço.
Menta e tabaco.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Soneto dos meandros

Estou perdido e sem amigos
Numa bolota apertada,
Que não cabe com minhas fotos
E filmes de infância.

A vida sem vida me causa ânsias
E me perco nos cantos, nos lados,
Nas reentrâncias
Da minha apertada cachola.

Das fotos de escola,
Não lembro o nome de ninguém
Porque não me importo.

Perdido nessa bola,
Nesse planeta de extravagâncias
Vivo do que é mais além.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

ciência mente

O que a ciência não atinge
A mente admite.

O que a mente não admite
O coração alcança
E se a última que morre é a esperança
A morte atinge seu limite

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Canção do Micróbio


Nós, que nesse aquário,
Que é a nossa gota d'água,
Nessa farra do boi,
Vivemos,
Nunca percebemos a nossa existência
Microscópica
Como que trancados em um armário,
Presos numa vida ridícula,
Em uma lâmina, numa película.
Sempre solitário,
Na nossa vida de protozoário.