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domingo, 15 de setembro de 2013

angelheaded hipsters

Sim, eu acho que eu sei...,
mas não tem um algo te consumindo, maior que o desejo, mas menos que o drama? Finalmente, que diferença que faz, no final? Esses casais nos ônibus, cheios de anéis, cheios de anos, cheios de ânus, cheios de si, beijinhos a parte, não são reais? Realmente, isso importa?
Mais respostas: atravessemos eternamente (como dizer a letra tê eternamente?), furar um vidro infinitas vezes sem que ele nunca quebre.
Você olha pra esses caras, arrumadinhos, e pra essas meninas, de saínha, coxas lindas depiladas à mostra, todas se querendo, e aqueles adolescentes cracudos putrefatos de tanto se picarem caídos na sarjeta, e você pensa que droga é foda, pelo menos essas drogas são foda, e vira os olhos pras coxas lisas ou pro cara fortinho de camisa social, mas aqueles meninos/crianças no chão estão gemendo, doidos de ácido, cheios de pó no nariz e no dente, você pensa que tem todo tipo de ácido pra fritar a cabeça e lembra do Syd Barrett ou outro, e vai dar mole pro carinha ou passar de leve a mão na bunda da outra, ele curte, ela geme, você tem dedos rápidos, raspões precisos, e aquela criança no lixo começou a meio que berrar, uns colapsos nervosos, convulsões, os olhos bancos vermelhos viram, e você lembra que doce inteiro pode ser pica de segurar a onda, MD demais é sinistro, bala demais também, e volta pra boca suja de batom transparente, pras mãos por debaixo da roupa, pro pau/mamilo duro, pra cara de pateta, pro esqueci seu nome mesmo, pro foda-se, tô precisando trepar, caguei, e de repente aquele bebê escroto é um troço amorfo na vala imunda, tem sangue saindo do cu dele, tem vômito na boca, as pernas estão imundas de sangue que escorre como a puta vida escrota desse(a) imbecil que você não acredita que pode existir, que é um merda homofóbico fascista viado liso nerd tarado broxa, e que você nunca mais vai misturar maconha com bebida...
Pois é, acho que eu sei, e o que eu penso daqueles casais do metrô, ou do ônibus, tanto faz, é que eles são fofos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Hoje 3

Todas as minhas forças se esgotam como que descesse de um tobogã, como um índio numa metrópole.
Eu sinto o meu naufrágio do seu lado, a minha impotência aguda diante da sua impassível vontade de me dar um soco, de gritar na minha cara: seu broxa.
Dançar só não serve, ela disse, e tudo caminhou para onde estamos agora. Que adianta o resto, me perguntou, me perguntava. Sou um bandido numa periferia. Desprezível, merecia ser pisado por saltos de putas até sangrar, as mãos e os pés, como um cristo, sangrando pelas ruas sujas das beiradas; essa imundice de quem não sabe dizer um por favor um obrigado sem ser irônico, não consegue dar um beijo já pensando em trepar, tem que arranhar a canela quando joga futebol: por quê?

Onda de ácido queimando a cabeça é como um choro aberto – você não pode fingir que não está fingindo. Não dá pra escapar, não dá pra fugir. O corpo morto levanta-se rápido, como que impelido por algum maquinismo, como se uma mão poderosa lhe segurasse os cabelos e dissesse gritasse no seu ouvido:


Não escutei! Não! Fala mais alto, a música está quebrando os meus tímpanos, tão alta que parece que saí de mim mesmo, nem tenho certeza se a música está ligada ou não, só eu pareço escutá-la e ela reverbera nas minhas costelas, infla os meus músculos e eu me transformo na própria música, cada nota é uma articulação, cada osso responde a um acorde, cada gesto meu vira um harmônico e cada dor, cada calor ou frio é uma dissonância bonita naquele arranjo desajeitado. As drogas batem forte, meus olhos marejados, perolados, avermelhados, arroxeados, bronzeados – aceitei, violei as leis da natureza com uma gozada prematura: sou inútil como um óculos escuro. Uma fotografia de um fantasma.

Chega de diários? Não sei fazer se não isso: todo dia a mesma rotina, todos os dias, aqueles dias felizes, dias felizes que virão.

domingo, 28 de julho de 2013

Hoje 2

Respirar quando se tenta não dormir – um talento do álcool, todos sabem. Mas por que tanto sono? Por que não dormir? O oposto da insônia é a bebedeira? Embriagar-se tanto e não querer descansar, bater a cabeça no ar como um árabe, como um roqueiro disléxico, entortando as pálpebras.
Quando se mistura café com vinho (não necessariamente no mesmo copo, não deve ser bom) chega-se num estado interessante de lucidez bêbada, uma vibrante vontade schopenhaueriana de revelar-se, entornar os olhos com o mundo exterior. Não é nenhuma droga ilícita, nada novo, inclusive, apenas um esforço de festinha, uma alegria tão permitida que pode soar até um pouco infantil. Você não vai pirar o cabeção, não vai destruir seu apartamento, se afogar na banheiro com uma torradeira ligada, vai só dançar alegremente a noite inteira, sem o sono, sem o detestável sono que estraga as noitadas.

Foi muito difícil chegar aqui. Muito trabalhoso, penoso. Não sei bem onde é aqui, mas sei que foi muito difícil chegar, por isso tenho que aproveitar e dizer pra mim mesmo, parabéns, você merece. Acordei hoje com a sensação de que meus pais tinham sido assassinados durante a madrugada. Pensei em tudo que eu acabaria tendo que fazer, as pessoas que eu teria que avisar, ligar, dizer.. como – como se liga pra alguém e diz que alguém outro morreu? pensei também no enterro, no discurso que eu faria no enterro deles, em como teria que herdar a casa, o dinheiro, as coisas, como meu irmão teria que voltar de londres para o enterro e como eles teriam morrido logo antes de fazer uma viagem que sonhavam há tanto tempo.

Eu sonhei que chorava, que babava, um ser jurássico e epilético sob a luz das estrelas. Eram uns pontinhos brancos naquele negrume de sítio na serra como um exército. No sonho eu não morria.

Passei todo esse dia quase acreditando que meus pais morreram. Eu não tive de coragem de conferir de manhã, antes de sair de casa – em parte pelo medo de encontrá-los num mar de sangue, com as peles brancas, as articulações enrijecidas, as pupilas petrificadas, ainda na cama, como manequins velhos de roupas sujas; em parte porque era curioso me imaginar naquela situação terrível e não queria que a sensação absurda terminasse. Inventei o meu martírio, o meu drama, queria vivê-lo com sua intensidade – chorei pela calçada e decidi à noite encher a cara, dobrar as mágoas na cachaça.

Estou excitado com a ideia de escrever. Olho para as pessoas em volta de mim, naturalmente. Quem são – o que sonharam nessa noite, eu me pergunto; imaginar o que um desconhecido sonhou naquela noite, tentar seriamente levantar isso nos coloca, de alguma forma, muito mais próximos daquele cara, daquela menina maquiada e dos outros. A menina deve ter treze anos: a gente percebe as suas curvas de mulher e seu olhar de criança, seu corte adolescente e sua tristeza de velha, seu vago sorriso de mãe e a ansiedade de menina, as mãos nos bolsos do casaco, a meia de lã por debaixo da saia, os mamilos atentos, a claridade da sua mudez. Deve ter doze anos.


Me lembrei do meu sonho nos seus lábios – e ela não disse nada do início ao fim. Ela tinha sonhado... não sei, não conseguia imaginar e subitamente me perdi numas lágrimas que se formaram no canto dos meus olhos: o vento frio me impedia de recuperar meus pais mortos. Essa ideia, ela sentada no meu colo, meus olhos se fechavam e lá estava eu. Acho que sou feliz, não tenho do que reclamar; feliz e imóvel.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

fragmento de "Dias Felizes"

WINNIE
"(...) A dúvida (Coloca o indicador e o médio junto à área do coração, procura o ponto certo, encontra.) Aqui. (Move-os ligeiramente.) Ou por perto. (Afasta a mão.) Ah, sem dúvida virá o tempo em que não poderei murmurar qualquer palavra sem a certeza de que você tenha ouvido a anterior e então um novo tempo virá, sem dúvida, um novo tempo em que terei de aprender a falar totalmente sozinha, coisa que jamais suportei tamanho deserto."

In: BECKETT, Samuel. Dias Felizes. Trad. Fábio de Souza Andrade. São Paulo: Cosac Naify, 2010. p41