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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

apnéia

Eu teria muito pra te contar do cativeiro - cheiro de urina e verniz e gasolina, texturas de paredes toscas, ásperas, trepidar e ricochete de geladeira de algum cômodo acima, cozinha provavelmente, torturas com choques elétricos e arrancar de unhas, cegueira, ridículo de chorar ou gritar ou espernear ou se inconformar, visitas frequentes de fantasmas, ânus, toca dos escritos, simples dor, talvez terra talvez não, acima o inferno, aqui a caverna, jogos de palavras, palavrões, bizarra disciplina perdedora de corpo e de mente, benção da água, língua, lágrimas, burburinho catatônico incessante da própria voz e de dentes seus, deformidade do corpo, imobilidade, jesus cristo, paladar de merda, cheiro dos órgãos, menos unhas que dedos, perda do medo e medo incessante... - entretanto talvez a terra na minha boca desfaça a aspereza dos fonemas, ou o trepidar dos lábios confunda as palavras, e de forma alguma eu quero transformar a complexa vida vívida vivida num ávido reflexo, num cuspe, num flashmob grotesco de insatisfação: talvez, portanto, eu precise desesperadamente dessa câmera, pra que ela seja a minha melhor arma, pra que ela mostre ao outro como eu o vejo, e principalmente, pra que toda lembrança do cativeiro - que revisito sempre nos pesadelos e nas filas do banco - seja revelada e mantida presa na minha jaula, como um frame na noite.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A difícil tentativa de dar uma opinião polêmica

Escorrendo sobre as margens de lodo da lagoa, o restaurante chique estilo modernoso-rústico meio pra gringo e pra moradores muito ricos - aquele tipo de morador rico que, ou gosta de passar por gringo, ou assume um estilo de em-viagem, um certo padrão visual internacionalmente tido como elegante, quer dizer, algo que, assume-se, qualquer pessoa, pelo menos qualquer ocidental, vai achar agradável, modernoso, rústico, elegante etc. Na mesa mais afastada do bar, com pouca iluminação, digamos algo que poderiam chamar de romântico-modernoso-rústico, dois homens desse padrão, não sabemos se gringos ou se passando por gringo ou isso tudo aí, conversam entre doses de drinques que não sabemos o nome - são drinques delicados, refrescantes sempre, com cores não tão vivas e hortelã, em taças miúdas, bem miúdas, com tanto gelo que deve ter pouco a se beber efetivamente. Mas não sabemos - não frequentamos muito esse tipo de restaurante.
Um dos homens veste camisa social preta com um botão aberto por cima de um blaser verde musgo bem escuro de veludo revestido internamente por um tecido listrado verde clarinho e branco muito delicado, não sabemos dizer qual tecido, pensamos em seda, mas depois pensamos que talvez seda seja um pouco demais, nem mesmo sabemos se se fabricam blasers assim, veludo com seda, um pouco surreal, mas talvez não, não sabemos mesmo, é um blaser bem elegante e de corte impecável, o que nos faz pensar que é feito sob medida (mas não sabemos). Esse homem é careca assumido - raspa o pouco de cabelo que por ventura ainda cresça - e usa óculos quadrados de aros de plástico vermelho. Não vemos suas pernas, mas sua posição sugere que estejam cruzadas em pose elegante, enquanto casualmente beberica de leve seu drinque azul.
O outro homem veste camisa social azul com mangas dobradas até a altura dos cotovelos, dois botões abertos no peito, ainda possível ver os vincos da dobradura da camisa nas laterais dos braços e no ombro e duas linhas ao longo do peito em paralelas que coincidem com as longitudes de seus mamilos (invisíveis claro, estamos assumindo aqui uma aproximação, uma possibilidade bastante provável que, pra efeitos de humor, queremos levar à cabo - supor precisa simetria entre dobradura de camisa e mamilos nos soa divertido). Seu blaser, menos elegante, mais ordinário (íamos dizer "mais dia-a-dia" com a acepção de que parece ser uma peça de trabalho do segundo homem, mas depois "mais dia-a-dia" nos pareceu impreciso - vamos prosseguir e refletir sobre a possibilidade de "mais dia-a-dia"), e apóia sua bolsa-maleta ao seu lado - tudo sugerindo que este homem veio para o restaurante imediatamente após o trabalho diário. Tem cabelos cheios e despenteados, olhos grandes, mãos grandes, pele notadamente mais branca que a de seu colega, e também jeitos menos sofisticados, menos elegantes, o que nos parece indicar que a sugestão desse restaurante veio do primeiro homem, do mais elegante, de fato, "faz mais a cara" daquele (expressão aqui empregada não apenas pra indicar essa semelhança de gosto, mas também num gesto irônico de que o primeiro homem quase se camufla como peça de decoração: suas roupas combinam-se perfeitamente com as almofadas dos bancos, tanto em textura quanto em tonalidade).
Não comem. Bebericam drinques. Conversam.

É difícil de engolir.... difícil mesmo. Eu não sei o que te dizer agora, mas também não vou dizer que concordo. Apenas... entendo.
É porque estou certo - por isso você não tem resposta.
Me soa terrivelmente misógino, acho...
Não, justamente o contrário - todo esse mundo de ideologias, de sistemas, de, se me permite colocar nesses termos, uma vontade de razão, tudo isso, é fruto dessa forma-pensamento que utilizamos, é fruto da nossa sociedade macho branco heterossexual ocidental capitalista, entende?
Mas é um sofisma grosseiro incluir o feminismo nessa conta, ou seja, o que surge como oposição à esse sistema...
Claro que é possível incluí-lo: o feminismo atua de forma a incluir certas práticas dentro dessa sociedade, atua pela inclusão, seja de direitos, ou de leis.
Ou seja, de maneira a transformar essa sociedade pra melhor, pra curá-la de pelo menos um de seus preconceitos...
Talvez, mas foi você mesmo que colocou a questão - de como mesmo em ambientes, digamos, 100% feministas, totalmente pró a inclusão das mulheres nos mercados de trabalho, nos ambientes que lhes foram cerceados por tantos séculos, mesmo ali, resta uma impressão de que elas não executam tão bem quanto um homem...
Não foi isso que eu disse.
Foi o que você falou, você falou do seu departamento, das mulheres no seu departamento...
Falei justamente pra enfatizar o quanto ainda temos que avançar, que mesmo num ambiente aparentemente aberto a mulheres, ainda restam...
Não, não, não estou questionando isso - isso é claro: a nossa inclusão parcial está bem longe de ser ideal, mas você mencionou - pelo menos assim entendi - que você não achava que as mulheres do seu departamento eram tão brilhantes, que você tinha a impressão de que elas estavam no lugar errado, porque aquilo seria de certo modo uma função de um homem - você mesmo comparou: seria como se criassem uma cota para mulheres em um campeonato de esporrada à distância...
Fala baixo. Você está eufórico. Calma.
Perdão... bom, você colocou dessa maneira.
Sim, eu disse - disse que certas funções não foram pensadas pra serem executadas por mulheres, são espaços totalmente masculinos, mas isso não quer dizer imediatamente que sejam machistas. - ao contrário, digamos que existe mesmo uma espécie de homoafetividade intensa nesses espaços. Nas Forças Armadas, por exemplo.
Sim! Exatamente. O meu ponto, se me permite uma metáfora, é que é como se nós estivéssemos jogando esse enorme jogo, cujas regras foram escritas por homens, e que era exclusivo aos homens - brancos heterossexuais ocidentais etc - jogá-lo. E agora, vemos todas essas minorias reclamando seu direito de jogá-lo. Justo, claro - mas elas se esquecem de que as regras foram feitas por homens para homens, eles serão sempre os melhores jogadores, esse é o jogo deles, eles vão ganhar sempre...
Mas eles querem mudar as regras também! Para que elas os contemplem também! Estão subindo ao Congresso, estão aprovando novas leis, estão mudando o jogo por dentro...
Não, você não está acompanhando. A própria ideia do Congresso etc, de como o Estado atua, de qual seu papel na sociedade, enquanto sujeito, entende?
Não, acho que você está propondo uma espécie de revolução, mas sendo extremamente preconceituoso com todas essas minorias que você diz estar levando em consideração. Não existe política nisso que você diz, apenas palavras fortes. Apenas ser do contra.

Os dois homens tornam a beber seus drinques elegantes sentindo a brisa leve e agradável de onde estão. Os drinques estão balanceadamente refrescantes, os gelos titilam alegremente (íamos dizer "como sinos de natal", mas depois nos pareceu uma expressão por demais jocosa, como se estivéssemos emitindo algum tipo de julgamento moral desse tipo de bebida e, por extensão, dos dois homens - não estamos), mas eles não chegaram a um entendimento.
Pedem a conta com um sinal e um gesto de mão-que-escreve-no-ar. Foi caro.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Entrada

Nossa, eu conseguia sentir forte seu cheiro, como se você fosse a própria brisa do mar. Essas situações pedem depoimentos dramáticos, né? Realmente tem essas coisas que você só compreende essencialmente quando elas acontecem contigo - talvez a maioria das coisas - um conhecimento "corporal", "visceral", como costumam dizer, né? Como eu posso te explicar?
Começa pelo começo... (riso cheio de dentes brancos)
Poxa... bom, eu não queria usar a palavra "se apaixonar" porque ela é muito forte e muito usada vulgarmente como uma situação muito explosiva, romântica, né? Tem a ver com o que eu quero dizer... Bom, se você me permite uma digressão etimológica, acho que páthos é a parada que estou tentando achar, que é o radical de "apaixonar-se", né? É dessa "paixão" que eu queria falar, mas não queria que esbarrasse em "apaixonado", "apaixonada", pelo menos não por enquanto, me incomoda um pouco isso agora.
Tudo bem... vamos deixar de lado. (sorriso simpático)
Tá (sorriso sem jeito). É simples, é só que a gente praticamente não se conhece, nos conhecemos super randomicamente, bem aleatório, e eu estou curtindo pra caralho esse papo que estamos tendo, acho impressionante que tenhamos chegado tão fundo logo num primeiro encontro, né?
(sorriso com dentes, olhos fixos nos olhos)
Então, e comecei a sentir essa "paixão" difícil de descrever, uma coisa realmente corporal, vou até dizer fisiológica, entende?
(pausa) Tipo uma dor de barriga? (risos)
(risos) Não sei, talvez! (risos)
(risos)
(risos - pausa, olhar perdido, pensamento por trás dos olhos) Bom, não sei o que é, mas percebi que estava diretamente relacionado contigo, entende? Notei que é esse nosso papo tão fluido, né? tão fácil, tão difícil de se ter normalmente com uma pessoa estranha, e que isso me fazia muito bem e tive essa "compreensão corporal", tipo, meio que soube dentro de mim essa coisa que estou tentando te explicar, mas o mais importante é que é uma certeza, uma descoberta, feita pelo corpo.
(olhar interessado, talvez felino, talvez jeito sensual, talvez um botão da camisa se abriu sozinho, talvez dois)
(sorriso pálido de canto de boca, olhar apreensivo, talvez volátil, talvez tropeçando eventualmente em peito recém descoberto, ligeiro gaguejar, tentativa de disfarçar) E o mais estranho é justamente o que eu estava te dizendo que não gosto muito da ideia de "se apaixonar", acho uma coisa criada, "amor romântico", entende? Acho que projetam esse tipo de coisa na vida, mas a vida não é assim, né? E a coisa é levada a um nível absurdo, de "amor à primeira vista", entende?
Eu já me apaixonei a primeira vista. Eu não esperava muito que rolasse, mas rolou, e foi incrível, uma sensação de proximidade difícil de descrever...
Tipo coisa de filme, assim?
Tipo mais que isso. Tipo, em filme é apenas o momento de se conhecer, eles sempre terminam o filme quando o casal meio que se firmou e pronto - "felizes para sempre", ou alguma coisa parecida com isso que tem esse efeito. Mas isso o que eu estou falando é do próprio relacionamento explosivo que a gente teve. Foi curto e intenso. Foi muito importante pra mim. (rearruma-se, talvez note botões demais abertos, talvez feche apenas um)
É, acho que você entende, então, o que eu estou tentando descrever. Essa sensação corporal, esse páthos intenso de um encontro significativo com alguém, ou que te confere significado de algum modo, quer dizer, não significa nada, mas não é esse o ponto, o ponto é o encontro intenso, a conexão, né?
Sim... (sorriso)
Pois foi isso que eu senti, que estou sentindo ainda... e começo a desconfiar que talvez seja apaixonar-se, talvez seja amor a primeira vista, talvez seja isso tudo que eu sempre recusei, combati até... (proximidade, momento crítico, inclina-se para beijo)
(não se inclina, mantém olhar, não se reclina tampouco)
(apreensão, certa dúvida, agora não tem mais volta, inclina-se para beijo pra valer)
(aceita todo novo toque, recusa beijo olhando pro lado quando lábios quase colam)
(pensamentos por trás dos olhos, inclinar-se se torna abraço, respira fundo)
(recebe abraço, pausa, desfaz abraço, sorriso miúdo sem dentes, talvez mais dois botões se abriram, talvez note e feche apenas um)
(talvez note peito redescoberto, talvez certo grau de desejo sexual primário)
(pausa) Olha, é que eu não senti tudo isso que você falou...
Não, claro, não era esse meu ponto também... Aliás, acho que foi bastante exagerado o que eu falei.
Sobre a gente estar se dando tão bem num primeiro encontro?
Não, sobre apaixonar-se, entende? Tipo, não acredito muito nisso, é o que eu estava te dizendo, é uma coisa inventada, vendida, muito naturalizada, mas tem data de nascimento, poetas do século XIII ou XII, não sei bem... (olhar pro chão, ou pra longe, ou pra qualquer lugar exceto o outro olhar)
Sim, na Ocitânia.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O Rio quer se tornar Ibiza

Tenho que admitir que tenho estado muito muito interessado em te matar, assim, é uma ideia que tem me passado muito pela cabeça, sabe? Sem drama, não quero que isso pareça querer dizer nada, e sem nenhum rancor também. É só que está cada vez mais frequente eu me pegar longas horas imaginando isso, idealizando formas, maneiras, um certo cenário, as vezes lentamente, outras um tiro na cabeça e fim, as vezes com tortura e tal. Sabe? Não, não, não tem por quê, você está sendo limitado, meio careta até, se me permite dizer, pensar numa causalidade; não é pra ser motivado, nem pra ser pensado como reação a nada, simplesmente é, sabe, "ser enquanto ser" ou algo desse tipo. Não sabe? Achei que você já tivesse lido Heidegger, não? Eu mesmo nunca li li, só assim, de passagem, alguns trechos de Ser e Tempo numa aula de mestrado que eu fiz uma vez na Filosofia. Foi ótimo. Você nunca escutou essa expressão "ser enquanto ser"? - nem sei exatamente se é essa expressão, pra ser honesto, mas... viu? Você nem conhece a expressão, sabe, esse é o tipo de coisa que as vezes eu penso em te dizer quando me imagino te prendendo numa cadeira e cortando a sua orelha, tipo Cães de Aluguel, mas conseguindo te queimar vivo sem que me matem antes, eu estaria bem atento a isso no momento, claro, seria bizarríssimo que eu tentasse emular uma cena de um filme, nessa onda a-realidade-que-tenta-representar-a-imagem-e-não-o-contrário, e realmente surgisse inesperadamente alguém e me matasse antes de te queimar exatamente que nem no filme. Bom, de qualquer forma, você ainda estaria sem orelha - e eventualmente seria morto mais tarde, né? - o que me reconforta um pouco, devo dizer... Você já viu Cães de Aluguel, eu presumo... Como não, cara? Caralho, você é muito alien - quer dizer, eu me sinto muito alien a maior parte do tempo, mas isso pra mim é bizarro, Cães de Aluguel é super batido, todo playboy assiste e diz que é o melhor filme do mundo, ou sei lá, Bastardos Inglórios... Sim, o que o Hitler morre no cinema. Pelo menos esse você viu. Gostou? Não? Porra, eu acho foda. Bem irado, pra ser honesto. Mas, bom, o que estava dizendo é que eu tenho cada vez mais imaginado essa situação de homicídio cruel, sempre bastante cruel, com níveis de perversidade radioativos, saca, e passo horas pensando nesses detalhes obscenos, e como evitar que você se desvencilhe da tortura ou que eu seja eventualmente pego ou morto, como nessa cena do Cães de Aluguel que você não viu, mas de um modo geral eu sempre acabo achando que eu vou ser pego, que vai ficar na cara que fui eu, sabe? Tipo, na real, parece que o que realmente me impede de executar, de te matar ridiculamente, de te empalar ou, sei lá, qualquer coisa muito muito cruel, é só mesmo o medo da represália depois. Que nenhuma educação de nenhuma ordem me tirou essa vontade estúpida de te torturar sem qualquer causa aparente. Você acha que tem causa? De novo acho que você está sendo meio careta... Eu sei, ok, uma possível "causa" inconsciente, mas, tipo, eu revisitaria essa sua pseudo-psicanálise ou sei lá de onde você tira essas noções, porque eu não acho que toda aparente loucura ou esquizofrenia seja automaticamente recalque ou algum "complexo" de castração ou apenas uma "pulsão de morte" ou "patrocínio" - epa, quer dizer... como é mesmo?, assassinato do pai é...? Me escapou... Ah, você entendeu, aquela história toda de assassinato primordial e tal. Acho que pode até ser, e talvez o seja na maior parte dos casos hoje em dia, mas sempre também é mais que isso, e não acho que exista um tal estado saudável de sanidade que o Freud parece estar sempre propondo e tal... Ah, sim, eu concordo. É verdade. Sim, sim, acho que sim. É, por exemplo, quando eu era criança eu lia muito e detestava os livros da Lygia Bojunga, sabe? Daí adolescente eu tive uma releitura dela e achei maneiro essa pegada meio "temas adultos nos livros infantis", sabe? Achei maneiro bater de frente com essa moralização idiota do que deve ser produto para crianças, sempre um politicamente correto bastante idiota. Mas hoje em dia, eu detesto a Lygia Bojunga, não muito por qualquer atributo da sua obra, mas porque ela é uma dessas mantenedoras de "direitos autorais" e, sei lá, fez uma editora própria só pra não ter que "ceder os seus (ditos) direitos" e não deixa ninguém adaptar os livros dela pro teatro ou coisas assim, cheia de mimimi. Cara, eu detesto essa idiotice de direitos autorais, é uma cascata deslavada, pretensamente para "proteger os artistas" (o que quer que isso queira dizer), pretensamente um "direito", essas merdas todas - direito de imagem, direito autoral - é tudo inventado pra mercantilização da arte, apenas pra isso - e quando inventaram isso, isso que eu estou dizendo era a própria argumentação da parada, pros artistas fazerem dinheiro etc. sei lá. Mas hoje em dia as pessoas falam como se fosse um direito natural do ser humano, tipo, apelam pra Declaração Universal dos Direitos Humanos ou coisas nesse nível, sabe? É muita burrice. Mas do que a gente tava falando mesmo? Ah é, a importância da infância... é verdade, eu concordo com isso. Não sei dizer exatamente como, mas acho que sim. E traumas e tal. Concordo a vera... Mais uma? Caralho, aqui é caro pra cacete. Tá, pede mais uma, vou no banheiro.
Cara, desculpa voltar a isso, mas acho que a gente tem intimidade pra essas coisas. Cara, de novo, eu tava no banheiro, e cheio de merda e mijo pra todo lado - eu sempre abro a porta com o pé e tento dar descarga com o pé também, pra não encostar nessas superfícies super contaminadas - e eu pensei em te afogar no vaso ou alguma coisa bem escatológica assim; mas daí me lembrei que tem aquela viatura da polícia ali na frente daquela boate, então eu provavelmente seria pego e foi isso que meio que abortou a minha imaginação... Tá, a gente pode mudar de assunto, ok. Sim, sim, eu meio que ouvi falar. De relance. Uma parada meio homofóbica, não é? Ah, mas, cara, eu tenho duvidado muito dessas coisas que neguinho faz circular por aí, tipo bar homofóbico e tal, e daí você vai saber melhor o que rolou e descobre que os caras importunaram pra caralho por horas a fio e vieram na moral pedir pra baixar o tom, daí rolou baixaria e porradaria, e daí é imediatamente "homofobia", tipo de argumentação fácil e pobre; ou chama qualquer tipo de ato contrário de "fascista", mais pela força da palavra, pra acabar de vez com o cara, porque ninguém vai querer se posicionar como fascista ou como homofóbico, claro - a não ser, lógico, fascistas e homofóbicos "assumidos", tipo um Bolsonaro, mas estou pensando numa galera menos abertamente fascista e que com certeza não se diz fascista - você meio que corta qualquer discussão sobre qualquer coisa deixando implícito que ser contra aquilo ou interferir ou abafar aquilo é ser automaticamente o oposto, ou seja, fascista, homofóbico, machista etc. sabe? Justamente. Justamente, e neguinho acaba entrando numa lógica de espetacularização da política, sem perceber que, essa sim, é uma estratégia, um modus operandi do fascismo, derreter a estética em política necessariamente, e não o contrário... Dilma. Nulo? Respeito, pensei muito no nulo, mas li uns artigos que o Chico Alencar postou na página dele tipo na semana antes do segundo turno e mudei de ideia. Mas não queria muito me alongar nisso... Vai lá, vai lá.
Não tá? Pois é, é grotesco, mas eu confesso que diversas vezes mijo randomicamente pra frente pela diversão de emporcalhar a parada, sabe? Movimentos brownianos de pau!

terça-feira, 19 de maio de 2015

Aquilo que chamam estar numa corda bamba

ELE está com uma preguiça enorme de continuar, sabe? Quando você tem uma responsabilidade imensa e inadiável, que deve urgentemente ser resolvida e depende exclusivamente de você para tal, mas ainda assim insiste em demorar-se em atividades laterais, tergiversar, gastar tempo noutros cantos como que inventando uma importância pra essas atividades laterais, como que tentando mesmo se enganar, meio que dizendo na sua mente que aquilo que parece lateral pode ter alguma importância também, ou, talvez outros discursos mais auto-apologéticos, como algo eu-não-deveria-ser-obrigado-a-fazer-o-que-eu-não-quero, meio que transferindo a responsabilidade pra um certo sistema (quando não transferindo diretamente pra uma outra pessoa; mas você não chega a esse ponto, não, isso seria por demais evidente pra você, transferir pra uma outra pessoa algo que clara e obviamente é sua responsabilidade e você sabe bem disso; mas talvez assumir que você está sendo "levado" por uma lógica de trabalho e eficiência e produção e pró-atividade que te foi introduzida com força por um sistema X que você despreza e não quer fazer parte e deve se esforçar para estar sempre consciente de quando está sendo ludibriado a fazer o que não quer fazer por esse sistema, isso sim você pode aceitar como algo a ser evitado e, portanto, justificar a sua recusa - que poderia facilmente passar por preguiça - em trabalhar no que merece a sua responsabilidade; a própria ideia de preguiça pertencendo a esse sistema de produção de produção que você quer sempre se esforçar pra não colaborar, não ser uma peça a mais nessa engrenagem, nessa máquina que é impossível ver o tamanho, e de onde vem e para onde vai, e que alimenta suas peças e engrenagens com falsas verdades, pequenos desejos a serem satisfeitos, ilusões passageiras etc, por exemplo a ideia de que trabalho é algo nobre, ou que todos devem trabalhar, ou, mais sutilmente, que existe alguma coisa como preguiça, ou seja, em último grau, um pecado de não trabalhar, e, mesmo que não levado ao último grau, ao nível de pecado, um gesto repreensível de não estar ajudando, ou não cumprindo sua responsabilidade, como ELE, agora), e estranhamente consciente desse gesto, desse gesto de transferir para alguma outra instância, seja o sistema, ou outra pessoa, ou falsas idéias de eficiência e pró-atividade, e alongando ad infinitum esses argumentos abstratos que possivelmente justificariam a sua preguiça, sua enorme preguiça em continuar com sua responsabilidade (argumentos que até aniquilam a ideia de preguiça talvez) e ciente de que esse gesto, e o próprio refletir sobre o gesto e sobre a consciência do gesto é também uma forma, uma meta-forma, de adiar sua responsabilidade, de empurrar com a barriga, procrastinar, e, em última instância, derrotar-se pela preguiça e pelo imobilismo de argumentações abstratas na sua cabeça; sendo que curiosamente nem mesmo lhe é uma responsabilidade imposta, não é um trabalho para outros, não se trata de um emprego, de um ofício, de um serviço para qualquer pessoa, é um trabalho seu e de seu único e exclusivo interesse, só quem sai perdendo é você, tanto faz pro resto do mundo você seguir adiante e vencer a preguiça e continuar, ou manter-se em atividades laterais menos importantes, a exigência de cumprir essa responsabilidade é auto-infligida, e, mais uma vez, você pensa no sistema de trabalho pró-ativo e funcionalidade e vitalidade que imprime nas pessoas essa ideia de que tem que ser eficientes e evitar desperdício de tempo, a própria ideia de que se pode desperdiçar tempo, perder tempo e tal, a contagem de tempo estabelecida; mas que, mesmo assim, talvez você também não esteja indo longe, que também essa sua forma de encarar o sistema e de criticá-lo é bem clichê, a própria máquina já reserva espaços e funções pra pessoas que pensam assim, um outro tipo de peça, um outro lubrificante: uma outra verdade totalizante e capaz de toá-lo em uma produção qualquer, que, de um modo geral, pode ser capitalizada, apropriada, simplificada à simplicidade de quem pode desejar aquilo (mais simples para os mais simples, menos simples para os menos simples não tão simples quanto os simples para que possam acusar de simplificada a apropriação simples etc.) e é extremamente presunçoso se colocar como alguém que poderia destroçar esse sistema simplesmente deixando de lado uma responsabilidade auto-imposta e procrastinar, até porque isso é possivelmente o que a maior parte das pessoas no globo faz; sendo crítico, parece mais radical ser uma pessoa responsável com seus projetos, crítico consigo mesmo e suas procrastinações, consciente desse lugar fácil de crítica ao sistema, dessa saída preguiçosa de que qualquer coisa que te faz sofrer ou te coloca em dúvida, ou que você é incapaz de realizar com a devida precisão e satisfatoriamente e, por isso, te fará perceber sua própria falência e simplicidade diante do mundo seria anti-natural ou culturalmente imposta; é fácil culpar o sistema ou outra pessoa, ou, menos simples, o sistema em si mesmo (mas tendo sido empurrado pra dentro de si por um agente externo corruptor, agora impossível de eliminar, pela cultura ou qualquer nome que tenha, melhor não se perder nesse debate), essa parece uma saída óbvia, e a saída não óbvia, não fácil, seria, portanto, exigir de si cumprir suas responsabilidades o melhor possível, cumpri-las atenta e criticamente, colocando todo seu empenho nelas, e, assim, tornar-se facilmente alvo de críticas duras, expor-se claro, porque você estaria inteiro ali, você teria feito algo, finalizado, e todas as suas fraquezas e burrices e incapacidades e simplificações e condições de classe e ranhuras de raciocínio e deturpações e, em último grau, todo o seu óbvio pertencimento a essa máquina azeitada de produção de produção, estaria evidente, até mesmo pra você (você se criticará duramente também), dando a tudo um invólucro de fracasso talvez, e que portanto, quando ELE hesita entre sua enorme preguiça e o cumprimento de sua responsabilidade auto-infligida, hesita apenas entre dois lados da mesma moeda, moeda essa que é a corrente das engrenagens, hesita entre o salto do trapézio ou a corda bamba onde deve cair e se equilibrar depois.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Manoela e a roda

Manoela sabe que quando o samba gagueja não quer dizer final mas breque, ou seja, Manoela entende que todo toque toda ginga ou bamba fraqueja pra poder trocar olhar mais tempo, pra fazer durar o tempo, pro tempo real ser tempestade, temporal, enchente e tal, e do fundo desse tempo todo poder voltar como esgoto em maré cheia. Ela anda descalça na rua atenta mas desleixada nas poças amarelas de varíola e cólera e raiva, catarros descartados pela chuva, carros assassinados pela enchente, servos do sistema, quer dizer, tudo que ela despreza mas não teme. Manoela é esguia, é linda, é peixe, enguia, é fruto podre na varanda ao vento ao ataque do tempo e do vírus; Manoela é calma, é como a lama abaixo.
O que Manoela não sabe é que naquele lado daquele dia, no laudo dos sobreviventes, não havia a poesia das águas, mas a prosa dos jornais, os ataques dos abutres, a sujeira dos asfaltos, e os altos e baixos das depressões apaixonadas, portanto, o nado desesperado dos ratos nos navios que singram, os patos que migram, o cheiro que antecede os terremotos, e que cruzar a rua descalça seria um zarpar sem volta, e que entrar naquela roda, naquela praça, excelsa a chuva do céu, lenta a nave dos olhos, forte o perfume do fumo, morria a criança abraçada no fiapo de sentido que é sentir-se vivo infelizmente.

Assim, Manoela descansa os olhos na roda à frente na praça sobre as poças podres sob a garoa boa da tarde de outono morno e desesperadamente triste sentindo que toda a sua vontade de estar ali se fora assim que sujou seus cabelos negros naquela água, quer dizer, que simplesmente sair de casa era sujo. Manoela olha pra si, pras suas roupas coladas ao corpo, pros seus colares e pulseiras, pro seu ventre livre à mostra, pra sua saia rasgada e recosturada, pras suas cores tristes, pras suas unhas, pros seus pés submersos no mangue...

Manoela sabe que tem uma pergunta mas não sabe formulá-la e então melhor calar-se pra quando puder dizê-la, fazê-la agora soa prematuro.
Manoela não sabe que ela é a pergunta prematura e linda e enguia e livre e descalça e chuva e rescosturada e fumo e praça e terremoto e tempestade e de volta o samba se encaixa nela como só depressões apaixonadas encaixam.

terça-feira, 28 de abril de 2015

aquele ele

O que fazer?
ele se pergunta enquanto soca ambos os joelhos cada um com uma mão simultaneamente e com muita força mesmo, tão forte que marca-lhe primeiro vermelho depois roxo igualmente em ambos os joelhos.
Ele está chorando muito, convulsivo, bem feio, afinal são poucos os que permanecem bonitos quando choram - e ele, que mesmo sem chorar não é uma beleza, ou, pelo menos, não é alguém que o senso comum destacaria por beleza, quando chora então fica com uma cara feia, toda contraída. E chora aqueles choros silenciosos, terríveis, pontuados por fungadas de nariz, mas sem nenhum gemido, as vezes um guinchar muito agudo e muito baixo e curto e seguido por uma fungadinha. E lágrimas também, claro.
Ele não está preparado praquilo, praquela solidão terrível, praquele não saber o que fazer, praquela casa de sempre, e aquela cara de sempre, praquele medo dos outros, praquela falta de carinho dos outros - que ele entendia não ser algo gratuito, o carinho, veja bem, ele não é ingênuo e não acredita que nascer significa portanto ser feliz, aliás, longe disso, bem longe disso, quase o contrário, e que, na verdade, o estado em que ele se encontra agora era para ele o estado normal de se encontrar, uma vez que vivo (aquela sabedoria de Sileno e tal), mas ainda assim, o desejo de receber carinho de outrem sobrevinha, e um subsequente medo de ser ridicularizado quando ensaiasse pedir esse carinho, fosse como fosse, lhe parece absurdo esse carinho - exatamente pela sua exemplar visão de mundo onde o normal é chorar nos cantos sem incomodar ninguém.
Também o medo da imagem de chorão o consume, e aumenta a sua solidão. Antes, quando não sabia o que fazer e chorava dessa forma, ele costumava procurar seus amigos, para consolo e carinho, mas agora, lhe parece que, primeiro, seus amigos estão fatigados desse tipo de consolo e carinho, segundo, que, sendo criterioso, não é esse o tipo de carinho que ele está exatamente interessado, uma comiseração por seu estado miserável, não, ele busca um carinho desregrado e dado sem ser pedido, um carinho que o senso comum destacaria como genuíno amor, fosse de amigos, mas mais especialmente de alguém que pudesse chamar namorada (ele é heterossexual) ou algum desses novos nomes dados a pessoas que se envolvem sexualmente e se oferecem carinhos desregrados mas não necessariamente vinculados por aquilo que o senso comum chamaria "fidelidade", muito embora as pessoas assim envolvidas provavelmente discordem - e provavelmente, com razão - do uso deste termo, uma vez que ambas sabem no que estão se envolvendo, não estão sendo "infiéis" quando se relacionam com terceiros, enfim, e terceiro, que chamar um amigo e encontrá-lo para chorar e perguntar o que fazer soa agora pra ele como uma espécie de imagem de sofredor muito tosca, como algo que parece ser falso, como uma projeção péssima do seu genuíno sofrimento que vai, mais uma vez, requerer a comiseração comprada do seu amigo, algo que o senso comum chama as vezes de "chantagem emocional", que pode, se bem executada, resultar, como dito, em alguma forma talvez de carinho, mas não o carinho almejado por ele.
O ponto-chave é, portanto, como receber carinho sem pedir carinho.

Ele não sabe o que fazer.
vou ao banheiro fazer cocô, pensa.

Ele decide olhar sua caixa de entrada do email enquanto defeca. Ainda chora um pouco. Ainda funga um pouco. Defeca pouco também. Lê um email de um dos seus aplicativos de espaço virtual na nuvem dizendo com frases alegres naquele vocabulário típico de economia criativa de internet que ele acabara de ganhar 500 gigas a mais de espaço na sua conta! e essa notícia o alegra parcialmente, ele para de chorar, termina de fazer cocô, se limpa, e pensa, talvez agora eu possa fazer um bom backup dos meus vídeos, eu estava mesmo precisando de um espaço extra.

sábado, 11 de abril de 2015

ciúmes

faz tempo que eu tenho qualquer coisa chamada sorte ou próxima disso ou mesmo muito tempo desde que sorrio incansavelmente por um acidente de percurso qualquer que inesperada e/ou ironicamente te cruza e destrói todo o seu pequeno mundo de tristezas de melancolia crônica e alumia os ecos das vértebras. A coluna oca respira cada partícula e o sorriso prende na pele mole da cara qualquer imprevisto, como dentes de tubarão, que se mexe pra respirar, que se perde turvo treme trinca com sangue nos olhos, quase literalmente. Estão acompanhando? Não tem imagem aqui, aqui são palavras sendo. Sério. Essa sorte esse milagre esse tempo essa travessia, não, não acontece tem muito muito tempo, e quando me toco disso, como uma masturbação triste, ejaculo cada uma dessas lágrimas mais grossas que sangue, e sinto como se o dia fosse frio e algum gigante me descascasse como uma espécie de batata podre - aquela miséria tão gosmenta e desprezível que dá até vergonha de encontrar pessoas, simplesmente a existência cessa e apenas somos uma pasta amorfa como catarro, sem sabor e sem sentido.
Isso tudo é ciúme.
Eu não posso me desvincular do que já sou pros outros por mais que me esforce, mesmo em casa, sem ninguém, continuo sendo essa cara abominável inominável determinada a ser sempre sua.

quarta-feira, 4 de março de 2015

seis partes

1. Entreouve-se no silêncio, ou eu imagino. E, como de praxe, hesita-se, evita-se, ainda que haja toque, disfarça-se, demora-se, pior, atrasa-se demasiado, perde-se, enfim. Não há causa ou efeito, apenas pena - enorme pena infundada enfiada afiada, faca,  foie gras, assim, violento e deliciosamente perverso, terrível, incurável, como a necessidade de cagar.
E por isso eu sempre retorno. Vê? não tem causa, qualquer motivo que seja: é a simbiose do soco e da borboleta.

2.
flashback: Convidei-a pra assistir uma peça, ao que ela aceitou de pronto e, portanto, ericei-me acreditando-me sortudo e venturoso etc, normal. Equivoquei-me. Novamente normal.

3. Obrigatório mudar de marcha, alguma coisa errada nesse fluxo infernal de gases e confetes e surras e foliões e ruas e beijos e risos e alegria e então maravilhosamente a chuva e escuto novamente no silêncio essa loucura: paradoxo de amor. Comecei a chorar, que é como eu somatizo dúvida, é assim: fraqueza, tremeliques, silêncios longos. E você sendo vento fende lenta quente o largo. Como você molhada. Poderia mesmo dizer imunda.

4. Agora a paz é tanta que desaprendi o que é amar e cago todos os dias pontualmente. (Acuda)

5.

6.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

inspiração

Não dá pra fingir seja isso que insistem em negar; mas deseja. Deseja ser. E fica calado, de cara feia no canto querendo muito ser tantas maravilhosas possibilidades, não exatamente desgostoso do que é ou possa ser, não que seja também apenas uma singularidade, claro que não, mas a brisa de praia morna no dia de sol, quando você não espera que possa fazer tempo bom numa cidade tão merda, isso sim é algo não pensado, e daí novas teias de aranha, como as janelas de um arranha-céu, se abrem no espaço recolhido da mente, naqueles sei lá quantos porcento de cabeça nunca usados integralmente, germinam nos brônquios e alvéolos sombrios dos cantos do pulmão, viciados no gás carbônico de dezenas de anos - uma inspiração.

Pois nas profundezas de ser alguma baleia rasteja na lama submarina ou sobe enorme, majestosa, enorme para sorver aquela brisa fresca, fria e boa, num dia de sol, magnânima, de verme esponja dispersa como fumaça argentina, como tinta óleo apagando infinita no oceano, como uma molécula de álcool que se procura nos mares do mundo, até ser céu, astronômica, as ondas paredes d'água fria, a realeza baleia monstro assopra e inspira - tudo.

E linda submarino vivo lentamente regressa ao abismo, imigrantes na goela.

Aqui é o céu sagrado de estrelas de sóis e luas de toda constelação ou nuvem, aqui, nesse canto de paredes fechadas, na casa sem nascer do sol, aqui, onde meu coração para pra escutar os pulmões do cérebro chorarem e cada ponta, cada canto, cada ser se repete se reflete se repele como notas jogadas no universo, as vezes som, outras sentido - me beija astronauta.

E linda submarino vivo lentamente regressa ao abismo, imigrantes na goela.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

algo para o qual você não consegue voltar

alguém pôs a mão na frente dos seus olhos, fechou-os, tampou-os, e disse, e aí?
Era tudo isso.
Você tenta ter controle, não adianta, não importa o quanto se esforce, e você se esforça, pra controlar as coisas, não um controle... ruim, apenas um entendimento das coisas, não importa o quão se olhe, me olhe, aqui, na sua sua frente, e recebe o meu olhar de volta, você não consegue... controlar. E você quer dizer alguma coisa... shhh... não sabe dizer, nada, não há muito o que dizer, os olhos fechados pela mão de outro, um outro, eu outro, ou outro outro, que importa? Seus olhos estão tampados por uma mão que não é sua.
Era só isso.
Você tenta abstrair, não adianta, abstração é uma espécie de preto, um preto mais cinza, quase com cores talvez, com certeza melhor do que esse certo preto que você enxerga de pálpebras lacradas e mão de outro por cima, mas ainda preto, e, em alguns momentos, quando você delira nas cores cinzas desse preto, e subitamente percebe e entende que tudo é cinza, preto, você então percebe, não adianta, esse preto é mais preto que o preto. Que importa? Seus olhos estão tampados por um carinho que não é pra você.
Era só tudo isso.
alguém sentou no seu colo, as pernas abertas por cima das suas pernas, lascivo, lancinante, uma espécie de lacuna vaga entre os sexos, poderia dizer suspense, mas quem se importa?
Você tenta ter controle, não adianta, não importa o quanto se esforce, e você se esforça, pra controlar as coisas, não um controle... geral, irrestrito, apenas um entendimento das coisas, não importa o quão áspero se toque, me toque, aqui, na sua frente, e recebe o meu toque de volta, você não consegue... gozar. E você quer ser alguma coisa... shhh... não sabe ser, ou querer, nada, não há muito o que ser, ou querer, a lacuna vibrando como um choro contido, um choro, eu choro, ou outro choro, que importa? A lacuna é o mundo onde ninguém vive e todos querem e são.
Era tudo isso.
Você tenta rezar, não adianta, rezar é uma espécie de breu, um breu mais azul, quase com cores talvez, com certeza melhor que esse certo breu que você sente nas mãos e na lacuna de outro por cima, mas ainda breu, em alguns momentos, quando você delira nas cores azuis desse breu, e subitamente percebe e entende que tudo é azul, breu, você então percebe, não adianta, esse breu é mais áspero que breu. Que importa? Suas mãos estão quebradas por um carinho que não é pra você.
Era só isso.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

histórias neutras 2

Leo, você me alimenta ensina alisa afina limita lapida decifra acende sibila enrola aperta espreme descobre desvenda sugere empurra fornece germina come.
A odisseia começa aqui.
Leo, se ao menos você acordasse, se ao menos você levantasse; mas eu cuido de você enquanto isso, eu te amamento, pode deixar, pode me sugar à vontade, pode se sujar à vontade, pode se lambuzar à vontade, pode se servir à vontade, deixa a vontade te guiar, deixa que eu cuido de você enquanto isso.
Leo, eu visto branco no quarto branco de móveis brancos luz branca fundo branco grades brancas roupa branca e te coloco no meu colo branco e te forneço meu leite branco e te ofereço meu peito branco a minha alma branca; as mãos atadas em volta do corpo.
Leo, você ainda é quente como legumes como macarrão como cozidos como molho como língua como sopa; as vezes eu te perco das minhas mãos, as vezes eu não te sinto mais colado em mim, as vezes não te sinto mais me sugando e aí choro, claro; choro o leite branco que você não está tomando; choro o leite que você não está mamando.
Leo, por que você não me bebe agora? por que você não me chupa agora? por que você não me come agora? quero te sentir como um canudo.

Ela, tão sem memória, tão presa de si, explodiu a cabeça ontem. Literalmente. Pegou em uma pistola calibre 42 mirou pela boca, ela sabia o que estava fazendo, seu pai trabalhava com essas coisas, com psiquiatria, ela sabia onde estava mirando, ela pegou a pistola, enfiou-a fundo na boca, fez pontaria e puxou o gatilho.

Leo, quero te abraçar como antigamente, não, não como antigamente, quero te abraçar como aprendemos, daquele jeito que aprendemos juntos, eu ao seu redor como uma mãe.
Leo, se nada mais der certo, se eu não te achar, se eu secar, se eu não puder mais te nutrir, te cuidar, te proteger, quero por fim te comer.

Ela, atordoada olhou pros miolos arrancados a fogo da cabeça como quem contempla o próprio filho pela primeira vez. Literalmente. Pegou-o no colo devagar, zelosa, mãe: mostrou-lhe o seio esquerdo, ela sabia o que estava fazendo, o seio do coração, ela mostrou-lhe o seio esquerdo e deu-lhe de mamar com um sorriso inesquecível e um brilho de aviador nos olhos azuis.
Eu tenho que falar contigo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

histórias neutras 1

Faz quanto tempo que cresceu esta folha na minha testa?
Você não vai me deixar só no oceano, estrela.
Todos esses mil, mil anos eu persegui algum momento que eu tentava me lembrar, como um sonho que escapa e que se ativa quando você revisita aquele local sonhado, como um déjavu, como um louco, louco eu me descobri nesse último ano. Tenho mais de mil anos. E fico olhando pra esse céu tão grande e uma certeza eu tinha: não tem outro céu, só este, só um, só, sempre.
De tempos em tempos eu tenho que me podar. Nas costas é mais difícil, tenho tentado não pedir pra minha mãe, fazer sozinho, mas ainda cedo vez ou outra.
O céu mudou um pouco. O céu parece que se deslocou nesses mais de mil anos, o eixo da terra se moveu, a minha mãe disse e é verdade, assisti uma reportagem a respeito depois daquela grande tsunami. Mas você permanece no céu, estrela, eu subo no mastro eu vigio o horizonte eu acendo os lampiões eu solfejo o alfabeto uma canção de ninar. O céu parece que se deslocou pouco mas um pouco, sim.
Entre as unhas têm musgo. No pé tem mais.
Eu oceano de você.
No meio do mar quando tem tempestade ou as ondas estão mais altas que pirâmides, as pessoas morrem e se afogam e se desesperam como formigas; elas finalmente percebem que nada que fizeram valia a pena, algumas podem se inflar de um vigor febril que eu chamaria mesmo lunático, embriagado com tal força da percepção da morte iminente que surge uma pretensa vontade. O que é a vontade de um homem contra o coração partido da natureza?
Os fungos cogumelos grandes, grandes eu uso para cozinha, cozinhar cogumelos. Eu tenho cogumelos na minha orelha, na minha cabeça, miolos-cogumelos mas não foi sempre assim; eu nunca me movi, por toda a minha vida eu fiquei aqui parado, quase inerte, e daí cresceu raízes e folhas e bichos na minha testa; mas quanto tempo faz?

Eu aproveito o máximo, eu juro; sempre horizonte, sem pés mais, de mãos no chão, mãos na massa, mãos nos bolsos, nem um centavo, nem nada que preste.
Você encontrou aquela foto perdida?
Os meus ramos foram acesos, como pavios, sério, alguém queimou as minhas pontas, como maconha, como um quarto fechado, trancado, guardado no fundo, fundo abismo mental, e as folhas foram queimando, acesas, como velas, como luzes de natal, eu era essa árvore de natal grotesca animalesca, meio céu meio oceano, sempre fui cego, mas vislumbrei brevemente esse pisca-pisca, esse lusco-fusco, essa madrugada nos meus galhos, eu ia acendendo devagar como o dia, eu era um amanhecer vegetal, cada ramo como um bruma amarela, cada galho cada braço cada membro desmembrado pelo fogo fogo fogo fogo, aceso até a ponta, sem nenhum explosivo, eu sempre perdi calado, eu sempre me fechei me escondi de tudo do mundo, de todo mundo, sem melodrama, é só fato, mas me dê licença pra falar desse dia, que eu queimei, alguém me acendeu e eu desapareci depois de milênios, milênios, eu queimei por anos e sumi do mapa, e o céu sumiu e...

domingo, 15 de dezembro de 2013

a gente sabe

bom, a gente sabe, né; tipo, é meio clichê aquela frase, não sei se você já escutou, mas várias coisas falam isso, filmes, séries, é bem lugar comum, que vai meio "é sempre bom ouvir que alguém te ama", mesmo quando você não ama a pessoa, é bom ouvir dela um eu te amo, ou coisa assim, é bom, nos faz mais feliz etc. Mas não sei bem se eu concordo com isso (naquela onda de que existem coisas que são mais verdadeiras quando não ditas - e é meio assim entre a gente), tipo, você sabe que eu te amo, eu não te falo isso, mas acho que você sabe e eu sei que você sabe e isso e aquilo e a gente meio que se olha (quando se olha) e sabe disso e convivemos com isso, e é "normal", você não me ama ou coisa assim, mas, tipo gosta muito de mim de uma maneira... amical (sim, essa palavra existe, é relativo a ser amigo) e meio que tem algumas regras (nunca ditas, mas que se estabelece com o olhar, né) de não ficar com ninguém na minha frente, ou evitar isso na melhor das hipóteses (se rolar não é o caso de pedir desculpas, seria ridículo, não precisa de desculpas pra uma coisa dessas, mas evita-se), coisa assim, mas fico sempre meio pensando o que rolaria se eu dissesse eu te amo pra você (ainda que você meio que já saiba), e acredito que o mais provável é estragar tudo que a gente meio que tem, vai rolar um clima estranho, vai acabar com a nossa amizade, coisa assim. Mas também (por outro lado) não é como se tudo fosse "normal" com esse mútuo discernimento de que eu te amo e não preciso dizer porque a gente já sabe e se eu disser estrago o que a gente tem, porque o que a gente tem é meio estragado já, ainda que seja só estabelecido pelo olhar e o respeito de pequenas regras (que não são bem regras, só acordos tácitos), então a gente meio que discute sem falar nada, ou rola climão em situações triviais porque existe isso e nós sabemos, coisa assim, e temos que fingir umas coisas as vezes, mesmo que nós dois saibamos que é fingimento, e fica escroto, porque eu não gosto de fingir as coisas - uma coisa é não dizer, outra é fingir mentirinhas, fingir que não percebo o que percebe-se etc. - e então meio que isso não funciona e o meu não dizer acaba por nos afastar, mesmo nessa situação amical e tácita de bons amigos, de melhores amigos ou coisa que o valha, mesmo assim, isso acaba não funcionando bem, então a gente se afasta e passa a ser fakes-melhores-amigos, sabe? Não está bem claro, mas talvez esteja dando pra entender, estou falando que é super falso, então não dá pra ser amigo na falsidade, sem uma cumplicidade uníssona, entende? E daí a gente se afasta e se afasta o suficiente (tanto espacialmente quanto temporalmente) que eu percebo que se torna um afastar pluri-verdadeiro, tipo, em todos os sentidos estamos afastados e saco que eu não te amo, porque nem sei quem você é, era só a fraqueza de dizer eu te amo, porque preciso amar alguma coisa pra que as coisas valham a pena, sabe, pra que eu queira fazer o que eu faço (já te falei, ou, se não falei, falo agora, que tudo que eu faço - ou fazia - é pra você, tem você na frente, no futuro, no objetivo, no olhar desejado), pra mim é importante amar alguma coisa, e não dá pra amar o trivial, o comum, mas, de repente, eu saco que você é comum: (esses dois pontos é meio o que eu entendo por "comum", tá?) meio hedonista, narcisista, marcada pela sua condição de classe e com pouco pensamento crítico a respeito disso, que curte umas modas meio "feijão com arroz" (sabe?) e nada disso teria problema se eu identificasse (o que eu costumava identificar) um sentido interior maior que superasse todas essas nossas (porque tudo isso que eu disse é meio super geral, qualquer um é assim, né) normalidades, humanidades, fraquezas vis, mas não, de repente não, de repente é ordinário, você é comum e sem condição alguma parece uma pessoa mais viva ou que me torne mais vivo. Isso é forte, me desesperou. Você pra mim era o amor redivivo; um cristo; um desespero de vida verdadeira clarificado na presença de um ser (personificado) - sim, tudo isso, você pra mim era tudo isso e não minto quando digo isso. Mas agora vejo que não - abro os olhos e vejo que não (ou, talvez, não mais, mas dá no mesmo): você é comum, e isso me desespera, porque agora o que eu faço não tem mais sentido último, nem olhar desejado, agora estou só, agora estou sem objetivo e tenho que lidar com isso sem metafísica alguma - que bom, alguns vão dizer, num sentido terapêutico para a minha pessoa; e eu, em algum nível concordo - você era a minha fonte de juventude, mas cansei de ser jovem, de ter espinhas e voz fina e barba ruim e cara de moleque, chega, eu era totalmente neurótico, acho que, em muitos níveis, essa foi uma primeira boa etapa. Mas isso não redime sua descida ao plano do real, isso te diminuí sobremaneira e a culpa disso é mais sua que minha, porque você quis ser normal - nunca foi, mas quis, quis descer, quis gostar de modismos fracos, de bobagens vis sabendo que não tinha sentido algum, e sua descida foi, portanto, deliberada da maneira mais canhestra que existe, e acho que foi isso, pra além da descida, que me fez sofrer e perceber essa vileza.
Ainda resta um problema: como achar meu colo perdido, aquele dengo, aquele chamego que só pode existir quando se espera muito mais que um amor comum, que um carinho baseado num desejo sexual praticado até sua saciação? Não quero ser objeto, mas unido. Você entende?

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Estevão Esteve

O doutor o olhou de cima a baixo depois do check-up de 10 dias de exames físicos, sanguíneos, de desempenho, de urina, psicotécnico, de vista, de matemática, de acidez estomacal, de toque, de fezes, auditivo, odontológico, limpeza de pele, urológico, búzios, completo, tudo completo, tudo muito certo e metódico, tudo preciso, toxinas, vitaminas, benzinas, hormônios, libido, psicológico, e por cima dos óculos de meio-aro quadrados e grandes disse num tom ansioso e levemente sibilante, como que carregado de uma sensualidade mórbida: apesar de todo o procedimento posso concluir com absoluta certeza medicinal que o senhor está doente e a doença deve levá-lo a morte em pouco tempo; simplesmente não pude deduzir que doença(s) é/são essa(s). Como assim, ele perguntou meio intrigado depois daquela maratona gigantesca de exames não podiam identificar a doença? Não é nada que conhecemos (nós a medicina, eu digo), disse Dr. Benway quase sorrindo por trás dos seus óculos, a barba negra perfeitamente aparada como que tremendo, ciciando alguma coisa, você deve voltar pra casa e tentar viver como os outros; mas como assim, quanto tempo eu tenho de vida, disse ansioso pra caralho, porque não sabia o que seria certo dizer numa ocasião daquelas, em que você acaba de descobrir que está doente de morte e não há remédio possível; não é certo: dias, meses, talvez anos - quem poderá dizer? É uma doença nova, totalmente ausente da literatura medicinal, não dá pra prever os efeitos possíveis, nem receitar qualquer remédio - só sugiro que tente seguir a vida com a alegria de sempre: é impressionante como alguns doentes terminais ainda conseguem se relacionar seguramente com seus colegas, inserem-se na sociedade, no mercado de trabalho, com uma alegria realmente contagiante: é mesmo a sua própria consciência de brevidade que os anima a desfrutarem bastante cada um de seus dias restantes - e alguns ultrapassam bastante a previsão dada pelos médicos, muitas vezes... O doutor parecia estar excitado por debaixo das calças. Não há mais nada que você possa fazer por mim? Temo que não, respondeu comicamente o médico.

domingo, 15 de setembro de 2013

angelheaded hipsters

Sim, eu acho que eu sei...,
mas não tem um algo te consumindo, maior que o desejo, mas menos que o drama? Finalmente, que diferença que faz, no final? Esses casais nos ônibus, cheios de anéis, cheios de anos, cheios de ânus, cheios de si, beijinhos a parte, não são reais? Realmente, isso importa?
Mais respostas: atravessemos eternamente (como dizer a letra tê eternamente?), furar um vidro infinitas vezes sem que ele nunca quebre.
Você olha pra esses caras, arrumadinhos, e pra essas meninas, de saínha, coxas lindas depiladas à mostra, todas se querendo, e aqueles adolescentes cracudos putrefatos de tanto se picarem caídos na sarjeta, e você pensa que droga é foda, pelo menos essas drogas são foda, e vira os olhos pras coxas lisas ou pro cara fortinho de camisa social, mas aqueles meninos/crianças no chão estão gemendo, doidos de ácido, cheios de pó no nariz e no dente, você pensa que tem todo tipo de ácido pra fritar a cabeça e lembra do Syd Barrett ou outro, e vai dar mole pro carinha ou passar de leve a mão na bunda da outra, ele curte, ela geme, você tem dedos rápidos, raspões precisos, e aquela criança no lixo começou a meio que berrar, uns colapsos nervosos, convulsões, os olhos bancos vermelhos viram, e você lembra que doce inteiro pode ser pica de segurar a onda, MD demais é sinistro, bala demais também, e volta pra boca suja de batom transparente, pras mãos por debaixo da roupa, pro pau/mamilo duro, pra cara de pateta, pro esqueci seu nome mesmo, pro foda-se, tô precisando trepar, caguei, e de repente aquele bebê escroto é um troço amorfo na vala imunda, tem sangue saindo do cu dele, tem vômito na boca, as pernas estão imundas de sangue que escorre como a puta vida escrota desse(a) imbecil que você não acredita que pode existir, que é um merda homofóbico fascista viado liso nerd tarado broxa, e que você nunca mais vai misturar maconha com bebida...
Pois é, acho que eu sei, e o que eu penso daqueles casais do metrô, ou do ônibus, tanto faz, é que eles são fofos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O Boxe

Todo o seu universo é um boxe de chuveiro. Ali vive sempre desde sempre e, até onde pode imaginar e teorizar, para sempre. É só. O Boxe é um quadrado de 1,20 metros, quatro lados (L1, L2, L3 e L4) determinam paredes cobertas por azulejos coloridos também quadrados de 10cm; dividindo L1 em 3 partes e L2 também em 3 partes traça-se uma reta (c) entre seus terços, reta que forma, junto com os segmentos de L1 e L2 a partir da aresta L1-L2 um triângulo retângulo, claro. Essa reta diagonal é a Cortina, de forma que a Área=1,20m² - 0,08m²= 1,12m² é todo o espaço habitável do universo (fig.a). A Cortina estende-se do chão até uma altura(h)=1,92m e tem desenhos repetitivos seriados de ondas senoidais que formam pares opostos entre si que se arrastam verticalmente, entre cada par, um círculo (fig.b). Na aresta L3-L4, a uma altura de 1,85m, há o Chuveiro de metal polido que exuma um jato pluridirecionado de água potável em intervalos e intensidades variados, que cai ao chão e escorre pelo Ralo circular de r=2cm. A água varia de temperatura, sempre no gradiente de 1°C à 50°C, também aleatoriamente. O Boxe tem h=2m, de forma que as paredes L3 e L4 têm, cada uma, exatos 240 azulejos brancos, verdes e azuis, mas sem nenhum padrão aparente de ordenamento; o que determina um V=2840L, entretanto, quando tenta enchê-lo, posicionando seu pé sobre o Ralo de forma a tampar o fluxo de água, deve considerar 1. o seu próprio volume a ser deduzido do Volume Total do Boxe; 2. o fato de que a água começa a escorrer quando atinge h=20cm, metade das suas canelas, de onde se deduz que há um espaço além da Cortina por onde a água escapa, possivelmente um banheiro. De fato, a existência do banheiro pode ser certificada por 1. a fosca transparência da Cortina, que deixa revelar alguns pequenos detalhes como pia e privada; 2. a Cortina não cobre toda a altura (h=2m) do Boxe, deixando livre uma fresta de 8cm entre sua haste e o teto, pela qual a sua observação (i.e. da fresta), quando escala as paredes criando forças opostas com as duas pernas (de preferência quando o Chuveiro está desligado), revela a continuação do teto até o horizonte. A possível existência do banheiro não é somente uma dramática ampliação do universo, determinando novos limites para este (i.e. o universo), mas traz em si a possibilidade de outros espaços além do banheiro que poderiam ser visualizados do banheiro, ou seja, a descoberta do banheiro amplia o universo ao infinito. Entretanto, apesar dos fenômenos 1 e 2 colaborarem para a existência do banheiro, revelando então que o universo seria maior que o Boxe, não pode deixar de avaliar que é possível 1. as imagens desfocadas de pia e privada visualizadas pela Cortina estejam impressas na própria (i.e. na Cortina), colaborando com o desenho de curvas seno e reagindo aos raios luminosos como um holograma, de forma que assemelhem-se a uma imagem formada atrás da Cortina, mas na verdade estejam na Cortina; 2. que a extensão do teto vista pela fresta acima da Cortina seja um espelhamento do teto do interior do Boxe, criado (i.e. o espelhamento) pelas próprias partículas de água e gases presentes no ar, tornando assim impossível visualizar, de fato, o Possível Banheiro. Ainda restaria esclarecer o destino da água que escapa do Boxe quando atinge (i.e. a água) h=20cm. Uma reflexão mais apurada nota que também a origem da água pelo Chuveiro e seu sumiço através do Ralo determinam um sistema aberto. É necessário, portanto, reconhecer que, banheiro ou não, há algo além do Boxe. É fácil descartar a possibilidade de que a água que desce pelo Ralo e que escapa à h=20cm (supostamente por debaixo da Cortina) seja a mesma que flui randomicamente do Chuveiro, uma vez que a água que chega pelo Chuveiro é impecavelmente limpa e potável, enquanto a que escorre pelo Ralo ou escapa do Boxe à h=20cm está quase sempre impura, quando não totalmente contaminada por excrementos (e.g. fezes). A não ser, claro, que o Chuveiro possua algum sistema próprio de filtragem interna ainda não revelado.
A ideia do Possível Banheiro assombra, 1. pela já mencionada ampliação infinita do universo; 2. porque, a não ser pelas parcas imagens difusas de privada e pia presentes na Cortina, nunca viu um banheiro, nem mesmo uma privada ou uma pia: as supôs. Pensou (já não mais pensa) que se pôde supor tal Ideia de Banheiro, ela tem que existir em algum lugar - mesmo que não imediatamente adjacente à Cortina - uma vez que não se pode conceber coisas jamais vistas (e.g. um espectro de cor que ultrapassa as cores visíveis). O mesmo raciocínio poderia aplicar sobre outros objetos que supunha poderem existir, uma vez que essas Ideias compunham um universo muito maior do que o Boxe e seus 2840L (e.g. outra pessoa).

sábado, 31 de agosto de 2013

Italianos 2

Florença, piazza della signoria, peoplewatching:
Não vejo italianos. Sentado, ao meu lado um tiozão japonês com sua mulher perua e pai idoso de chapéu branco e garrafa térmica na mão, do lado deles 4 rapazes alemães estilosos e playboys um deles com o óculos escuros fellini que eu estou procurando, na minha esquerda uma velha chinesa muito velha me pergunta em suposto inglês se a água da bica ao lado é para beber, tento explicar em inglês, ela não entende, seu suposto inglês é sordidamente um daqueles sons nasais chineses, aquelas vogais que só existem no oriente, ela aponta pra placa, eu explico de todas as maneiras que ambas as bicas são a mesma água e que pode, sim, pode beber, sim, both are drinkable, yes, the two are water, water, for drink, drink porra, faço o gesto. "ãinm?" Eu entendo: quis perguntar 'the same?', yes, the same. Ela sorri e agradece e vai beber água. Espanhóis, sérvios, árabes, coreanos, japoneses, portugueses, americanos, brasileiros, italianos!
Eu acho isso muito curioso, pensar em cidades e espaços criados para o turista, sua população só passa, atravessa. Paris no verão tem mais turistas que moradores. O que é ser parisiense então? Veneza afunda sob o pé de tantos turistas e a Basílica de São Marcos praticamente não é mais usada para ritos religiosos, tem uma fila imensa na frente, dois italianos grosseiros na porta, um recorte de pano TNT bege que eles vendem por €1 para mulheres que não tenham nada para cobrir seus ombros nus em respeito a casa de deus que agora tem um trajeto circular determinado por aquelas fitas elásticas de controle de filas e que não abriga mais nenhuma missa.
O que são guetos?
O Epcot é um parque que abriga o mundo inteiro. Muito legal. Lá também tem uma piazza de São Marcos. Em todas as cidades que já fui na vida tinha Mac Donalds. É muito estranho pra mim o sucesso do Mac Donalds. Não é como outras empresas transnacionais globalizadas. Não é, sei lá, a Coca-cola. A coca é só uma bebida de sucesso com uma ótima propaganda. O Mac Donalds é um tipo de comida chamada de junkyfood, comida nojenta, comida de porcaria, eles se dizem isso, anunciam péssimos e caros sanduíches, vendem sanduíches ainda piores e mais feios e mais junky que os anunciados e todo o mundo gosta. Em Paris tem um em cada esquina, os parisienses, sejam eles quem forem, aparentemente amam o Mac Donalds e tem, inclusive um apelido carinhoso, MacDö'.
Acho que esse é o futuro da democracia globalizada da política de minorias.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Italianos

Turim, via garibaldi, flaneur, peoplewatching:
Óculos escuros pretos roxos dourados mudam de cor. Regazzas de belos cabelos curtos pretos cacheados e/ou ondulados olhos pretos pele clara vestidos pretos seios lindos botas pretas bolsas de couro colorido. Bicicletas amarelas vintage verde musgo e onduladas. Homens fortes nariz forte gordo máfia ferrari camisetas polo coladas estampas horriveis gola pra cima (como eu comumente chamo estilo neymar) boné vermelho camisas sociais listradas quadriculadas cortes curtos cabelos curtos penteados cabelos longos presos em rabo. Tipos bregas. Madonnas gordas mammas mesmo mamas fartas. Escolásticos em ternos claros camisas claras gravatas claras. Cigarros finos. Crianças imitam pais falam alto camisas de time tênis coloridos imensos meninas de vestido calça legging preta e/ou rosa. Gays mais gays. Bronzeamento artificial. Jovens tatuados topetes enormes com roupas jeans: bermuda jeans pescando-siri jaqueta jeans camiseta social jeans-claro.
No alto, nas janelas dos prédios do século XVIII, fotos de atores e atrizes do cinema italiano entre os rococós de anjinhos barrocos das fachadas.