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sexta-feira, 29 de março de 2013

obituário de Clarim Spoiler

OBITURÁRIO de CLARIM SPOILER
pelo poeta e cientista social Dínamo Helenânimo

É com muita honra e tristeza que levanto essas pobres palavras para homenagear aquele que foi o meu maior amigo, e um dos homens mais brilhantes que já pisaram nesse planeta - embora ele, de fato, relutasse em pisar por aqui. Obcecado por outros planetas desde que o conheci, Clarim Spoiler (as vezes chamado de Rif Waffles, nas suas primeiras peças, ou ainda de Ficto Profiterólis, quando assinava seus poemas ainda adolescente) recusou ser chamado de terráqueo, quanto mais, pertencer a qualquer grupo ou nação terrena. Sua ascensão aos céus, aos 24 anos, foi mais do que anunciada a todos seus amigos e parentes e parecia a melhor solução para o tímido e relutante niilista que ele se tornara. No bom sentido - extremamente desde muito cedo, criativo e inseguro, era-lhe muito difícil adaptar-se à vida cotidiana de todas as pessoas.

Incentivei-o a escrever assim que ficamos mais amigos; percebia nele a sede de ser escutado e, muito mais importante, a capacidade de dizer novas coisas ou de repetir melhor coisas velhas. Alguns tentaram empurrá-lo para o teatro, mas era óbvia a sua preferência pela escrita; assim, como dramaturgo, pareceu estabelecer-se no meio termo, em um lugar que lhe era confortável e no qual conseguia trabalhar criativamente e sem esforço. Então, aos 19 anos, um ano depois de nos conhecermos nos corredores de 15 metros de altura da faculdade de letras e línguas (curso que nenhum de nós fazíamos, mas gostávamos de frequentar algumas cadeiras) ele publicou, escondido dos outros por um pseudônimo, sua primeira peça, "Werther nas Estrelas", muito influenciado por suas classes de germanística e romantismo, teatro épico e a literatura alemã da república de weimar e cálculo 3. Embora na época tenha circulado apenas num ambiente universitário intelectual, costumava agradar todos que ficavam até o final, que era mesmo o arremate que fechava seu sentido. Muitos foram os críticos que, tendo saído nos primeiros quarenta minutos, fizeram resenhas totalmente afastadas do que a peça, de fato, trazia como reflexão. Sua segunda obra, "You don't Get Away", uma visão irônica da história como disciplina, centrada em dois personagens que podem mover-se no tempo e solucionar todos os problemas da humanidade, causou escândalo com uma cena na qual Maomé convertia-se ao judaísmo depois de ser derrotado por Salomão em uma partida de ping-pong. Por ela, Clarim teve que se esconder por meses na casa de amigos, pois foi jurado de morte por grupos extremistas tanto muçulmanos, quanto judeus.

Clarim parou de escrever e de estudar depois que namorou e morou com a atriz Nana Senóide, a qual conhecera acompanhando os ensaios da montagem daquela segunda peça, onde ela fazia o papel de Lâmbida, uma méson-mi existencialista e sensual. Nós três viramos um grupo de amigos e morávamos praticamente juntos, porque eu não saía da casa dos dois - não é à toa que, depois que Clarim foi morar no espaço, eu e Nana tenhamos nos casado. Clarim, foi, portanto, o responsável pela melhor coisa que já me aconteceu, a qual eu lhe sou eternamente grato. Ele nos apresentou.

O tempo passou e Clarim Spoiler teve crises de depressão fortíssimas, nas quais ele só podia comer chocolate e tocar violão. Lembro-me dele, de cuecas, em cima do telhado de sua casa, olhando pras estrelas e tocando uma canção muito triste. Era claro que ele apaixonara-se pelo inalcançável, pelo infinito, pelas estrelas. Depois dessa noite, foram dois anos até ele anunciar, sem maiores explicações - nenhuma era necessária - que passara no concurso para astronauta e que habilitara-se para habitar um satélite por meses e que pretendia manter-se lá por toda a vida.

Lá ele se manteve, de fato, fazendo-nos visitas anuais, quando, então, demonstrava sua enorme inteligência e nos apresentava o que escrevera nos seus meses de afastamento. Dessa forma que publicamos suas outras peças, as quais apresentavam uma progressiva aproximação de problemas mais cotidianos, o que, no início parecia extremamente contraditório com a sua condição.

Finalizo estas homenagens falando mais como seu amigo, arrisco dizer o maior amigo que ele tinha - pelo menos entre os terráqueos. Clarim Spoiler é forte candidato ao homem mais importante do século, por tudo o que produziu e pela mente incrível que possuía; pela história singular que levou e pelo enorme amor que sentia por toda a humanidade, ainda que afastado totalmente de seu cotidiano. Ele nos protegia lá do céu e com frequência senti que dirigia minhas preces mais a ele que aos anjos.
Clarim Spoiler não morreu - é uma estrela, como sempre foi e quis ser.

segunda-feira, 18 de março de 2013

reflexões de Clarim Spoiler

Passados 9 meses de sua morte, agora que se reviram as obras e o inventário de documentos e cadernos antes desconhecidos do dramaturgo e astronauta Clarim Spoiler. O autodidata, que aos cinco anos aprendeu a ler e, aos doze, abdicou de qualquer cidadania, vindo a se refugiar, apátrida, num satélite que voltava à Terra somente no verão (independente do hemisfério de aporte), confiou seus últimos escritos ao amigo Dínamo Helenânimo, com a indicação de que ele os lançasse ao fogo. "Era o que eu ia fazer" diz Dínamo "mas, sem querer, notei meu nome escrito nas páginas de um diário de capa vermelha e, não resistindo, li. Nunca acreditaria se não tivesse lido por mim mesmo. Pois ele não só disse que detestava toda a humanidade, como à mim, mas que todos! Canalha! Hipócrita. Li outros trechos e percebi que seu desprezo não era exclusivo a mim, mas a tantas outras pessoas que lhe eram próximas, apesar dos meses em que ele passava sozinho no espaço. Decidi publicar o material como vingança, para que todos possam ver o homem horrível que ele era."
Vingança ou não, o fato é que os cadernos de Clarim Spoiler revelaram enorme talento artístico. Suas poucas peças publicadas, duas sob o pseudônimo de Rif Waffles, foram de grande importância pro cenário teatral contemporâneo. Os diários parecem revelar, ao contrário do que reclama Dínamo Helenâmico, um lado apaixonado de Clarim, até pouco, desconhecido. Selecionamos alguns trechos mais marcantes dos seus documentos:

"ah sinto que escorre pela nuca
a massa mole da minha cuca;
mais que nunca o meu cuco-
peito batia forte: tudo feito.
E minhas ideias vazavam pelo corte.

"Escrevi esse poemeto como uma metáfora - queria falar de como um apaixonado abdica de seus valores pelo amor. Mas me parecia piegas esse tema. (...) Não evito admitir-me um homem apaixonado, incoerente, podendo desistir de tudo por um sim. Mas escrever poesia sobre isso é pedir pra que te abram a cara com um machado literalmente. Por que falar de quem você ama e do que deseja é tão chato para os outros, e tão desorientadamente interessante para si mesmo?

"Deixei no planeta uma corja de desinteressantes más pessoas. A choldra que me seguia era incuravelmente burra - e burrice invencível é algo que me tira do mundo. Literalmente. Viver aqui é muitas vezes melhor que na superfície: a gravidade não me afeta - não há política ou compromissos sociais; leio, releio, assisto filmes e revejo tudo o que quero, quando quero; posso tocar violão.

"O mais bacana, no entanto, é o telescópio. Posso apontá-lo em qualquer direção, seja para o espaço infinito, para Deus, ou para a Terra azul, com tal precisão e aumento, que posso observar uma pessoa caminhar pela rua em Moscou, a princesa trocar de roupa em Comodo e a pesca ilegal de baleias nas Filipinas; assisto, através das nuvens, com visores infra-vermelhos, ultra-violetas e intra-verdes os caminhos e trilhos das pessoas, escuto suas preces como um anjo e navego por seus olhares não-vistos por quem deveria tê-los visto, por todas as entrelinhas e sub-textos das relações humanas. Daqui, entendo tudo, mesmo que não possa falar com ninguém.

"Desço ao mundo somente nos verões. Algumas vezes, nem queria; outras, conto os dias que faltam. No verão, as pessoas parecem conversar melhor. Espero que um dia Dínamo descubra que eu o detesto, porque ele roubou de mim o meu lar, a minha cama e tudo mais que tinha dentro...

"Se eu te olho de canto
Tu canta pro meu olho
O conto do nosso encontro
Uma troca de contas
O faz-de-conta do seu corpo

Mas se eu te olho reto
O preto do seu olho avança
O joelho da coluna trança
O traço que sua mão balança.
Como o olho faz o feto"

Citônio parou de ler a reportagem como quem acha uma aliança dentro de um peixe que se desfiava pro almoço. Alguns chamam essa sensação de dejavi, outros, de lembrança de vidas passadas, uns últimos de "buraco-de-minhoca", supostas quebras no espaço-tempo. De qualquer forma, aquilo lhe atingiu de tal maneira, que decidiu nunca mais escrever poesia com aquelas roupas.
Um protesto silencioso contra a vida, talvez.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A história de Tifo e Larica

Há uma época do ano em que os dias mancam muito quentes, mas todo início de tarde chove desesperadamente até de noite. São temporais fortíssimos, que transformam praças em lagos, marquises em cortinas de cachoeiras, canteiros em lodaçais, mendigos em húmus, plásticos em água-viva, ladeiras em corredeiras aceleradas - de fato, algumas espécies de peixes migravam de oceanos distantes e subiam as ruas até o alto dos morros numa piracema urbana curiosa para colocarem seus ovos na copa dos coqueiros submersos. Pela manhã, o sol nasce com tanta luz e tanto calor, que a água voa rapidamente, revelando uma cidade já consumida pelo caos e pela sujeira. Às 4 da manhã saem os tratores da prefeitura recolher o lixo, os afogados e os destroços dos barracos que rolaram dos morros naquela madrugada. Às 6, todos saem para seus trabalhos.

Foi assim que Tifo e Larica se conheceram. Tentando voltar para casa, os dois apanhados pela chuva e se refugiaram debaixo da mesma marquise. Era noite e a luz dos postes refletia na água suja que passava veloz pela rua, como uma corrida de porcaria. Os dois sentavam no degrau da farmácia da esquina onde ficaram presos, completamente molhados, como se tivessem tomado banho, só que ao invés de se limpar, se sujaram. Nessas horas, quando nos vemos presos num mesmo lugar com um - e apenas um - desconhecido, seja em um elevador que para misteriosamente, seja no engarrafamento com um carona misterioso ou em um passeio de barco onde a gasolina misteriosamente acaba, é comum alguém acabar puxando um assunto para, como se diz, quebrar o gelo. Mas não eles dois. Tifo e Larica, os dois, eram mais tímidos que labirintos de parque de criança, e a situação não era das mais alegres. Tifo sabia que estava fedendo de chuva e suor, porque tentara correr para evitar exatamente o que acabara acontecendo e seus sapatos molhados estavam fazendo barulho de água mesmo quando ele não movia os pés; Larica percebia que a tinta do seu cabelo recém aplicada estava asquerosamente escorrendo por suas têmporas e que sua roupa molhada ficara transparente obrigando-a a ficar com os braços cruzados. Não havia o que conversar.
Então, Tifo olhou para dentro da farmácia e viu. "Que irônico - tem guarda-chuvas ali dentro" comentou como quem não quer nada. Larica olhou, viu e balançou a cabeça afirmativamente, com um sorriso sem dentes de quem consola um vovô depois de uma piada sem um final claro. Tifo calou-se definitivamente. Demorou mais de uma hora para Larica dizer "Se ficarmos doentes com essa chuva, pelo menos não temos que ir muito longe" falou, virando os olhos para o colega de marquise. Ele reparou na lama que escorria de seus cabelos lisos e ondulados quase como sangue muito escuro e percebeu a pele branca por debaixo das roupas molhadas, dizendo "é bom que você também pode pegar outro frasco de tinta" sorrindo. Ela percebeu o seu cheiro de camisa de futebol guardada no fundo da mochila e seus sapatos escurecidos e acrescentou: "e desodorante pra você...".

Os dois achavam que, em algum momento, a chuva pararia e eles poderiam sair e esquecer-se um do outro, e que, o mais tarde que isso poderia acontecer, seria o nascer do dia seguinte, quando o sol secasse os caminhos com sua luz confortadora. Bom, lógico que, em algum momento, aquela aguaceira teria que parar, mas não foi ao nascer do sol. Um novo dia acordara e o temporal continuava assolando a cidade, sem perder o ritmo. Aquilo assustou os dois que, agora, começaram realmente a temer que os degraus da escada da farmácia da esquina seriam poucos para suportar o rio que subia de nível a cada minuto.
Os dois não falaram nada e nem se moveram até o dia começar a cair. "Perdão, meu comentário foi maldoso" "Tá." "Eu também estou fedendo..." "Tá mesmo...". Novo silêncio.
"Podemos tentar outra vez? Acho que começamos com o pé esquerdo." "Ótimo, começa você", ele disse, e Larica se levantou de onde estava e sentou-se mais próxima.
"Bom, eu gostei dos seus sapatos - não são os melhores para dias de chuva, mas lembram o de um artista de rua que eu gostava muito quando eu era criança. Ele tocava violino enquanto declamava versos." "Eu gostei da cor que você escolheu pro seu cabelo, ainda que não seja muito inteligente aplicar tinta numa época como essas." "Não deixei de notar que você corre bastante, mesmo que não faça muita diferença correr na chuva, porque você acaba se molhando ainda mais, mas achei bastante atlético." "Que engraçado, porque eu reparei que você não correu pra debaixo da marquise, o que não é muito inteligente, porque você acaba ficando mais tempo na chuva, mesmo que se molhe menos, mas achei muito elegante, sofisticado, lembrou-me uma bailarina de rua que vi adolescente que dançava em um teatro velho abandonado que fora bombardeado durante a guerra e não tem telhado e certo dia chovia muito, mas ela continuou dançando, enquanto as gotas lentamente pesavam seu cabelo no coque frouxo, lavavam seu suor contido, e molhavam sua roupa branca, fazendo com que ficasse transparente...."
A voz meio que foi morrendo. Larica ofereceu seu olhar para Tifo como quem serve uvas em um jantar. Ele a olhou como um menino virgem e suspirou com frio.
"O que aconteceu com ela?" "Parou no tempo - ela é adolescente até hoje, linda pra sempre." "Como?" "Eu nunca mais a vi". "Eu sou bailarina..." "Jura?" Larica abriu sua mochila e mostrou um par de sapatilhas surradas. "Puxa, e eu sou violinista..." "Sério?" Tifo abriu a sua e mostrou seu instrumento e o arco. "Toca pra gente" "Toco, se você dançar."
Então, pela primeira vez desde que sentou ali, Larica descruzou os braços e trocou seus sapatos; e quando Tifo afinou seu violino e começou a tocar e olhou para Larica, percebeu que ela o reconhecia tanto quanto ele a ela.

Os dois foram levados pelo rio no décimo terceiro dia.

Algumas semanas depois, Citônio passava por aquela esquina quando reparou num reflexo diferente da vitrine. Aproximou-se como se seguisse na direção que ia e percebeu uma frase escrita com dedo no embaçado de um bafo: "Aqui o tempo parou e depois seguiu.".

sábado, 12 de janeiro de 2013

O armário de roupas

Existem coisas que claramente não deveriam estar separadas, como formigas. No entanto, o fato de estarem definitivamente separadas é muito mais forte do que o fato de que não deveriam estar.

Era dia de mudança. Não de cidade, ainda, só de bairro, nada que fosse transformar muito sua rotina, nada que interferisse verdadeiramente na sua vida, mas uma mudança considerável. Mudava de ruas, de passeios e, com certeza, de clima. O bairro pra onde ia era no alto de um altíssimo morro, coberto de floresta virgem,  habitado antes por macacos que por pessoas, onde os edifícios eram raros e as casas nas árvores imperavam cheias de luxo e com vistas belíssimas para o mar ou para o cemitério de elefantes atrás das rochas. Mas o mais perturbador de lá era, com certeza, a incessante chuva. Não havia um dia sequer do ano que não chovesse. Fizesse chuva ou fizesse sol, chovia. Assim, não à toa, os moradores eram reconhecidos pelo uso de botas muito sofisticadas, uma moda própria de capas e botinas, fechos de couro e chapéus e calças de veludo de dar inveja.

Citônio se preparava. Desmontara seus cabides, recolhera as roupas, doara alguns itens dispensáveis, descartara de vez os quebrados, encaixotara os livros, as revistas, os aparelhos eletrônicos, empacotara o acordeão, os cartões-postais, as caixas-de-música, plastificara os cadernos, as agendas, selara os pincéis e as borrachas, guardara sua câmera fotográfica, sua flauta doce, seus óculos, seus cremes dentários e seu computador de última geração. O quarto esvaziara-se. Ele checava tudo ainda mais uma vez, para confirmar que não deixava nada pra trás que lembraria assim que montasse seu próximo quarto pensando com raiva e tristeza que nunca mais reaveria aquele guarda-chuva importado ou que perdera pra sempre aquela fotografia tirada num celular velho. Olhou atrás do espelho, próximo ao rodapé, na fechadura da porta, entre a janela e a parede e no vão do armário embutido.
E foi quando decidiu bater de leve nas paredes, como o sol da manhãzinha, em busca de algum esconderijo que nunca tivesse percebido. Se essa ideia parecia absurda desde o começo, mas curioso foi reconhecer um estranho eco nos fundos do armário, como se um brilho brotasse daquele som. Atordoado e surpreso feito nuvens de granizo, Citônio analisou a parede, as madeiras, escorregou a tábua dos fundos e encontrou um vão entre os veios da madeira como quem descobre uma nova galáxia. Ali, espremido e apertado, havia um envelope pardo muito antigo, meio amarelado, meio molhado e depois seco, meio comido por traças e cupins, alguns ainda mortos presos no seu lacre, como espermatozoides derrotados, ou como bolhas de sabão congeladas. Com mãos trêmulas e desobedientes, Citônio puxou o envelope do vão e abriu-o com excitação.
Dentro: uma resma de papéis de cartas, recortes de revista e uma foto. Citônio folheou com pressa, eufórico com a descoberta, olhando rapidamente para cada recado. Deteve-se na foto: antiga, parcialmente mofada num dos cantos, daquelas coloridas como se fossem preto e branco. Nela, um casal num parque de diversões olhava para um dos cantos como que suspensos naquela expectativa do que nunca apareceria - um eterno mistério. O homem era alto, magro e forte, feito um pescador, mas de pele muito branca. Usava uma camiseta regata e calças largas, como um soldado em descanso, e, nos pés, bonitas botinas marrons. Num dos ombros uma bolsa de carteiro de onde saía uma flor de abóbora imperiosa. Os olhos pretos olhando perdidos praquele canto invisível da fotografia. A moça era muito menina, baixa, com cabelos ruivos, cacheados e curtos, nariz grande e boca pequena - um ar de gaivota pousada, à espera do próximo peixe. Vestia um vestidinho de verão, sem mangas e cheio de florzinhas estampadas, calçada com botinhas curtas marrons. Numa das mãos carregava muitos morangos e nas costas uma mochila. "Quem batera aquela foto?", pensou Citônio. Mistério. Repousou-a no chão e olhou as cartas. Eram, na verdade, apenas três. Entre elas, recortes de revistas de rostos de artistas, casas exóticas, privadas ecológicas, carros elétricos, placas de energia solar e um único anúncio de uma câmera fotográfica. Sobre a primeira carta, meio colada, como casca de cigarra, uma carta de Tarô. Citônio não sabia identificá-la - era O Carro, genioso e decidido. Colocou-a no chão com cuidado, como quem empilha alfinetes, e abriu a primeira carta com a delicadeza de uma água-viva. Citônio não respirou enquanto à lia:

"3 de dezembro

querida Ucrânia [Citônio lembrava-se que, no passado, era moda dar nomes de países para as meninas; ele mesmo tinha uma tia-avó chamada Coréia],
Queria eu saber escrever como algum monge, ou cantar como um pássaro de manhã, ou de alguma forma poder falar melhor o que quero te dizer hoje e todos os dias: amo-te!
Você enfeita as minhas retinas toda vez que vejo seus cabelos vermelhos, acalma minhas têmporas com seu cheiro de fruta no pé, silencia meus ouvidos com seu estranho assobio, anestesia minha língua com a sua quando me beija e abranda minha pele com o seu toque de carinho, com o seu corpo de ninfa da noite.
Nunca vou me esquecer de ontem, nem do seu terraço.
Nunca vou esquecer do nosso primeiro beijo.
E queria que você sempre lembrasse de que qualquer presente que eu já te dei, ou qualquer elogio que já te disse, não traduz o meu amor eterno por ti.
Esta carta é a nossa viagem juntos até a Lua!

eternamente seu,
Croma"

Citônio sorria como o sumo de uma montanha. Pousou a primeira carta no chão e leu a segunda:

"11 de janeiro

minha amada Ucrânia,
Você vive como uma poesia. Você é um girassol.
Nosso apartamento me lembra uma caverna perto da casa em que eu fui criado que só dava pra entrar com a maré baixa. Nela eu guardava diversas coisas minhas que não queria que os outros descobrissem. Depois transformei no meu primeiro laboratório de fotografia! Improvisado, claro, e as fotos saíam todas amareladas pela maresia, mas eu adorava e dizia para todos que aquela era a minha marca. Lá eu também dormia com um colchão no chão.
Quando você voltar, iremos morar juntos!

beijos e muitas saudades,
do seu Croma"

Sem pressa, Citônio leu a última carta:

"7 de fevereiro

esta é a última carta.
Que vai amarelar como as minhas fotos, como tudo que amarela quando envelhece, como as folhas das árvores e como a pele dos velhos, como o bronze dos sinos das igrejas.
Nosso amor é amarelo.
Que fazer da nossa última migalha ou do última vez que demos as mãos andando de bicicleta? Quando vamos nos olhar de novo?
O mundo todo é amarelo.
Um olhar novo vai surgir, vai superar todos os medos e incertezas e vai fazer a maré baixar tão baixa que os peixes aprenderão a voar. Quando você me olhar assim, aí, então, a gente vai voltar a morar junto e a dormir no mesmo colchão baixo. E a nossa horta helvética vai voltar a ganhar os prêmios do bairro e nosso guarda-chuva vai voltar a ficar colorido quando molhar.
Agora eu vou viajar.

nunca mais seu,
Croma"

A surpresa parou as lágrimas de Citônio, tamanho o espanto com a última carta. Atrás dela, colada, havia uma outra foto, que ele não reparara. Citônio a descolou como um caramujo e, então, chorou. Na foto, a menina ruiva, Ucrânia, estava sentada na beira de uma janela - a janela daquele quarto, que Citônio habitara por tantos anos e, agora, despia - e ela olhava para ele com a alegria de uma menina que recebe o primeiro sutiã. Os cachos ruivos caíam até os ombros, a franja escondia um dos olhos com todo o seu mistério.

Citônio se apaixonou.

sábado, 15 de setembro de 2012

O Bexiga

Um amigo estrangeiro, depois de algumas semanas de insistência, finalmente o convencera de saltar de asa-delta.
Kit era o tipo de cara perfeito pra esses esportes: marombado e maconheiro, atlético como um elevador; mas Citônio, que recentemente tivera uma pneumonia depois de assistir à final de fórmula um num bar recheado de abelhas-cachorro, estava mais pra nado-sincronizado que pulos voadores. Kit tentou convencê-lo de todas as formas, chegou a lhe arranjar ingressos para um bar mitsva guei num barco de um empresário rico, comprou-lhe pantufas novas, e pagou-lhe, inclusive, por um seguro de vida caso o salto fosse trágico. Nada lhe convencia. Foi só depois que Citônio fracassou pela quarta vez na prova de ingresso para o Régio Conservatório de Acordeão Local, e decidiu afogar as mágoas num mix de vodca Trótski com própolis das abelhas-cachorro que o dono do bar recolhia com uma rede de caçar borboletas, que Kit o fez jurar e assinar que iria fazer o salto no próximo fim de semana ensolarado.

O dia chegou, o sol brilhava como uma gaita nova, e Citônio vestia-se com aquelas roupas de tecido sintético, um tanto arrependido de ter tão boa caligrafia quando está bêbado. Pra quem já pulou de asa-delta, este parágrafo pode ser ignorado - vou tentar descrever a sensação pra quem nunca o fez. Depois da válvula de adrenalina acionada exatamente no momento em que só te resta correr e pular, vem aquele diabólico tremer na próstata que precede um orgasmo, acompanhado daquele eriçar de cabelos meio clichê nos esportes radicais. A urina congela na saída do túnel e suas pernas correm sozinhas, porque os olhos não desviam sua atenção do abismo geográfico (literalmente, claro) que te resta à poucos metros, melhor dizer, poucos segundos. E quando o vento ácido da corrida transforma o medo em determinação te resta um último micrésimo para gritar qualquer maluquice!
"FODAAAaaa...!!" gritou Citônio, quando caiu como um... foguete, vá lá - é uma comparação meio óbvia, mas eu acho bonitinha - sobre as florestas secas da cidade. "Foda" é, por sinal, uma ótima escolha de palavra pra se gritar, caso se almeje algo "gritável" (palavra que aqui significa qualquer coisa que se diz quando se foge de um animal selvagem) e, ao mesmo tempo, de complexa tradução para outras línguas. Isso porque usamos "foda" tanto como substantivo, como adjetivo, quanto como verbo. E se encaixa em frases iguais as vezes com sentidos opostos.
E foi gritando "Foda!" que Citônio voou como uma cotovia apaixonada. O ar exalava um cheiro de maresia e um frescor arenoso. Citônio sentia-se alegre, com vontade de cantar belas canções, de jogar isqüéch e de pentear os cabelos! Cada fibra do seu corpo se condensava em excitação, numa euforia budista sem tamanho.
Mas, naquele momento, os telejornais da cidade alertavam estado de calamidade pública: o calor do dia escondia um evento climático exótico e pouco comum que ameaçava a vida de todos que pesassem menos de 240 quilos: um tufão tropical - apelidado carinhosamente de Bexiga por comunidades helvéticas da América do Sul depois de uma votação disputadíssima na internet (Pum, Pluft e Pandora acabaram dividindo os internautas amantes do 'P') - formado por camadas intercaladas de ares frios e quentes trazia consigo uma chuva intensa e, claro, muita ventania: as baratas se alojaram em seus ninhos de argila; os bares fecharam, abandonando seu lixo nas ruas: os bueiros fecharam com o lixo dos bares: a cidade inundava pela terceira vez em menos de quatro meses.
Citônio, pego de surpresa, tentava segurar firmemente suas asas, pensando que, no final das contas, pentear o cabelo teria sido inútil. Via a água subir rapidamente, como corrida à vera de criança, uma massa líquida terrível que tudo abraçava com sofreguidão. Tudo termina na água: a cidade submergia com velocidade, os carros varridos dançavam como formigas sem trilha; as pessoas se afogavam como pixels; e as antenas parabólicas brilhavam como pequenos peixes. Citônio agarrava-se à ventania, segurava no ar com toda a força da vida.

Foi apenas depois de três dias voando em meio à chuva infinita, com as pestanas congeladas e com cabelos permanentemente despenteados que Citônio percebeu que voava sobre o Atlântico. As nuvens abriram uma pequena clareira, como uma janela que se desembaça no meio, e Citônio pode notar as constelações do norte à lhe guiarem. Ele viajava com muita muita velocidade como... um foguete, pode ser. As ondas elevavam-se e desciam, como batimentos cardíacos, a maré mudava e desmudava. Então, depois do quinto dia, quando Citônio conseguira capturar sua primeira carpa voadora com os cadarços soltos das polainas, ele avistou terra firme!
"FODAAAaaa...!!" gritou, dando razão a plurissignificação que eu apontara. Nós temos muitas habilidades escondidas, prontas para despertarem, como um animal selvagem (palavra que aqui quer dizer qualquer coisa que mereça um grito ao ser vista), nos momentos de perigo ou necessidade. Mesmo sendo seu primeiro voo, Citônio não teve dificuldade em descer do céu nublado, cinza como filmes velhos, e pousar na praia adiante, repleta de restos de um avião que caíra perto. Era um avião de correio e, entre as encomendas empresariais, as cartas de amor, álbuns de fotos, chaveiros, vinhos importados, placas de rua e LPs de astros da década de 60, Citônio conseguiu encontrar comida e balas Juquinha. A refeição foi breve, mas suficiente. Levantando-se, começou a caminhar num sentido onde via prédios ao longe. Perdido, mas encontrado, Citônio seguiu reto, achando as ruas, túneis e auto-estradas estranhamente familiares. As placas liam-se em português, as árvores eram semelhantes às de casa.
Ao entrar na cidade, pelos fundos, sobre um enorme viaduto circular, Citônio teve certeza: estava numa cidade idêntica à que morava! Abismado, olhou melhor, em busca das serras, florestas e praias que povoavam sua cidade natal. Não era exatamente igual: as descargas das privadas giravam em sentido contrário, e os livros de kama sutra exibiam posições invertidas: esta cidade era um inverso exato da que morava! Correu, atrapalhando-se como quem se penteia em frente ao espelho, em busca de seus lugares conhecidos. Cruzado pelas pessoas que o ignoravam de modo invertido - pegou um ônibus pela porta de trás numa linha de número ao contrário e saltou em casa. Estava lá. Reflexo da que sempre morara.

Os anos se passaram e Citônio já se acostumara àquela vida de revés. Nem tudo era exato: algumas pessoas não mais existiam ali: Zepelin, seu grande amigo, sumira; mas Trivela permanecia. Próclise, sua dentista barbuda também não morava ali. Conheceu um novo professor de acordeão, que se chamava Assíduo e conseguiu passar na prova do Conservatório local, que era um inverso perfeito do outro. Paracelso, colega da escola, também morava ali, mas não tinha 3 rãmisters, mas 3 sapos de cores diferentes que sabiam cantar em acordes em tom menor.

Citônio aprendeu que tudo que sobe, desce.

sábado, 16 de julho de 2011

O Centro do Mundo

Pérgola, tadinha, era muito feia. Daquelas meninas que todos concordam que é bem feia. Até seus pais sabem que ela é feia. Nem vou descrevê-la pra ninguém acabar se identificando com ela e ficar ofendido. Basta compreender que ela é feia. E este sempre fora seu trauma.
Tudo mudou na festinha de quinze anos de Paracelso, um colega redondinho do colégio. Como sempre, sentia-se sozinha ali no meio de todos. Todos começaram a fazer pequenas apresentações - Colônico levitava a si mesmo e pequenos objetos; Paracelso exibia suas habilidades com malabarismo, que incluía facas, tochas e seus três rãmisters; Loirelinda dançava Na Boquinha da Garrafa. Pérgola a odiava. E não só ela. Odiava Trivela, a menina que jogava futebol; odiava Ruivadia, que usava um vestido repleto de brócolis; odiava até mesmo Taturana, que tinha bigodes felinos. Mas era Loirelinda quem era alvo de seu ódio mais mortal. Veja ela agora, dançando como uma calopsita com um vestido que mal lhe cobre as nádegas somente para que todos aqueles garotos fiquem sorrindo embestalhados! Até mesmo Citônio...
Pérgola se afastou, triste como um hipopótamo, sem saber que rumo tomar. Saiu do apartamento, olhando apenas o chão, passou pelo corredor, onde encontrou Trivela e Zepelin se beijando, e começou a seguir uma enormíssima fila de formigas, tão comprida que se bifurcava diversas vezes, entrava por banheiros e escadas de incêndio, labiríntica. Quando Pérgola deu por si, estava de frente para um espelho, dentro de um banheiro comprido.
Olhou-se, horrorizada com sua aparência. Como podia ser tão feia? Por quê? Sua vida era comprimida, como a camada de ozônio, por aquela feiúra imanente. Era como se todas as folhas de outono nunca caíssem e permanecessem secas em seu caule. Pérgola começou a chorar, sentindo-se dilacerada pelo próprio olhar, e as enormes lágrimas rolavam por sua face, escorriam pelo rosto até a ponta do queixo, pingavam no decote dos peitos, desciam pelo corpo e deslizavam pelas pernas até os dedos dos pés; ou pingavam do rosto nos ombros, e caíam-lhe pelas costas, escorregando pelas curvas do corpo e das pernas; algumas poucas saíam dos olhos para cima e molhavam suas sobrancelhas e seus cabelos, lavando-a completamente. O choro saía-lhe como tinta, lembrando aqueles pequenos cachorrinhos acuados, ganindo como um cisne. Em alguns minutos estava totalmente molhada, encharcada de choro. Aquelas lágrimas exprimiam toda a sua feiúra e, aos poucos e diante de seus olhos, Pérgola percebeu que, junto com as lágrimas, saíam seus ares de ogro e ela tornava-se uma moça linda, de olhos limpos, de faces brancas e cabelos ondulados; o corpo encurvava-se como vidro quente e ela sentiu-se a mais bela de todas as meninas da festa.
Não podia acreditar naquilo. Diante de si, no espelho, não havia mais aquela garota detestável, feia como catarata, mas uma moça muitíssimo atraente que piscava, incrédula, com um olhar mais sedutor do que vidro embaçado.
Voltou a festa e era nítido como, de repente, diversos meninos a olharam, interessados. Talvez fossem seus cabelos molhados, pingando em desalinho, ou o vestido que colara em seu corpo, mas a verdade é que olhavam para ela de maneira totalmente diferente do que ela estava acostumada. Ela não sabia agora, mas nunca mais conseguiria se secar, ficaria pra sempre molhada, pingando onde ia, deixando um rastro perfumado de poças atrás de si, como um caramujo. Linda e pegajosa.
Citônio entendeu o que é um OB. E um BO também.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O despertar da primavera

Tudo recomeçou no Despetar da Primavera. Como todo mundo sabe, essa é uma peça super transgressorazinha, cheia dos lances sexuais e castrações de pais autoritários, suicídio etc e tal. E a maioria das pessoas fica sinceramente tocada depois que assiste, muda a vida, troca de nome, ou de sexo até. Já vi um que passou a usar uma venda transparente pro resto da vida. Cada macaco no seu galho. Quando Citônio e Arquimedes, seu professor de acordeon, saíram do espetáculo, no entanto, tiveram uma disenteria braba e juraram nunca mais voltar ao teatro em anos bissextos.
A semana teria transcorrido normalmente, não fosse a prova de carpintaria marcada pra quarta-feira, que Citônio não estudara patavina, afinal, os dias de sol eram raros naquela época do ano, e ele estava esperando as chuvas voltarem a alagar a cidade para, preso dentro de casa, não ter outra opção que não meter a cabeça nos serrotes - não literalmente, claro.
Portanto, não era de se espantar que, depois de dias de sol alegre e fofolete no céu, Citônio fosse um dos únicos na sala depois de quase doze horas e meia de prova. A quarta-feira foi, coincidentemente, o primeiro dia de chuva depois de muito tempo. Faltando apenas dez minutos para o fim do exame, Citônio passou os olhos pela sala e reparou que estava sozinho com Loirelinda - que podia ser linda e loira, mas era burra como uma tábua - aliás, como A tábua que tentava serrar com o lado sem corte do serrote. Como até a professora, Sra. Bicho, já havia deixado a escola por conta do risco de inundação iminente, dizendo aos alunos restantes que não colassem e que deixassem suas cadeiras envernizadas em cima de sua mesa que ela recolheria no dia seguinte, Citônio se sentiu livre para desrespeitar parte das ordens e orientar Loirelinda na sua ridicula tentativa de criar uma tábua menor (a cadeira envernizada estava longe de ser atingida).
Aquele era, com certeza, o momento de maior proximidade que os dois já tinham passado - antes havia sido uma vez que ela sentara sem querer ao seu lado no ônibus e dormira caindo em seu ombro e babando em seu casaco. Ela agradeceu gentilmente a ajuda oferecida por Citônio, ele se aproximou, sentindo seu aroma de camomila, pegou o serrote e, másculo como um bombeiro, serrou a tábua ao meio. O sinal indicando o fim da prova tocou e os dois arrumaram suas coisas em silêncio, sentindo, ambos, um friozinho na barriga, como aqueles que prenunciam o momento em que a agulha vai entrar na sua veia num exame de sangue.
Qual foi a surpresa cheia de contradições que tiveram quando perceberam que estavam presos no colégio devida à chuva, que fizera o rio elevar doze metros de seu leito até os muros da escola e os ratos nadarem em formações migratórias em busca de terra firme. O temporal estava forte e pequenas pedrinhas de gelo começaram a tamborilar sobre o telhado de zinco e sobre as telhas de amianco da portaria. O frio espalhou-se como cheiro de gás, o granizo acumulava-se pelo pátio e os dois voltaram para a sala em busca de lenha para uma fogueira. Como ainda queriam passar na prova, pegaram as cadeiras dos outros colegas para alimentar as chamas. Loirelinda tremelicava como um gago e encolheu-se entre os braços de Citônio para aquecer-se, que, como todo bobo apaixonado, manteve-se na mesma posição por mais que seus ísquios doessem terrivelmente.
E foi assim que eles deram o primeiro beijo: Citônio foi lentamente abaixando a cabeça e Loirelinda foi lentamente fingindo que não percebia nada, até que seus rostos lentamente se aproximaram e ela sussurrou lentamente: "me beija, melchior". Ele lentamente fingiu que não ouviu, e suas línguas lentamente se enrolaram.
Citônio aprendeu a nunca descrer no teatro.

domingo, 13 de junho de 2010

Dia dos namorados (ou Plongée)

Era a madrugada mais fria, gelada do ano. Os sinais piscavam em amarelo, as poças refletiam o amarelo, o asfalto sustentava as poças com seus reflexos - mas o seu reflexo era mais opaco. Raros carros passavam, pouca gente passava. Só Citônio.
Ele caminhava lentamente lembrando liricamente daqueles lindos dias de devassidão. Costumava sair muito com seus amigos de madrugada, catando mendigos por aí, contracenando com os marginais da meia-noite, recolhendo os colegas nas casas de cada um, bebendo cachaça e terminando no lixão afastado, ou na praia, ou no porto, ou perto da prisão, ou em cima de um viaduto. Agora, no entanto, caminhava sozinhamente. Começou a cair uma garoazinha finazinha.
Citônio contornava um muro altíssimo, todo cinza, todo reto, encimado por coroas enroladas de arame farpado e cacos de vidro rosa espetados. Citônio caminhava, sozinhamente. Ali, preso entre os labirintos do arame, havia alguns gastos sacos plásticos de outros tempos, que o tempo frio trouxe e ali eles ficaram presos, dançando, leves, com o vento. Eram como bandeiras de impérios caídos, rasgados, com seus restos tristes balançando - sozinhamente. Citônio pulou um bueiro encharcado de baratas. Olhou novamente para o alto do muro. Além dos panos plásticos percebeu que haviam pássaros - pombos - presos na rede farpada. Alguns pareciam já estar mortos, mas outros ainda tinham espasmos débeis e piscavam os olhos, sem compreender que findavam com as penas presas no arame. Citônio não se impressionou, mas franziu o cenho. De repente veio, muito lento, um carro, com faróis acesos muito fortes. Citônio continuou caminhando, mas meio cego pela luz forte. O carro passou. Citônio, então, viu algo mais bizarro. Ali, em cima, preso no arame farpado e nos cacos de vidro cor-de-rosa como os sacos plásticos, havia um poeta morimbundo, com espasmos tão débeis como o dos pombos, com olhos tão sujos quanto o bueiro embaratado. Estava roto, tolo, tosco; morria como um rato, roído pelo arame, rasgado pelo vidro. Ele deu um risinho triste, Citônio olhava-o, sério. Então, depois de alguns segundos, o poeta virou-se e viu Citônio, e, com a boca presa pelas garras do arame, disse, sem falar uma palavra: "Envalsei-me no veludo!"

Citônio nunca mais pensou noutra coisa.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Dunas

O dia estava com um quê de misterioso nublado. Era um céu marítimo, meio prateado, de enormes nuvens escamosas, de cor meio indefinível: cinza-peixe. Às três da tarde cairia um granizo leve, e Citônio encontrava-se na praia, com Trivela, sua melhor amiga. Os dois calçavam tênis ol-istar, e vestiam calças diins, mas ele usava uma jaqueta de veludo verde, com uma camisa cor-de-preto por baixo, enquanto ela optou pelo mole-tom, nem lá nem cá, e desprendera os cabelos caindo num ombro. A água parecia muito fria - de fato, a areia coalhava-se de águas-vivas congeladas, que atraíam muitíssimas gaivotas, preenchendo a brisa do mar de uma gritaria desoladora. Os dois comentavam uma notícia de jornal:
Um cientista descobria que todos são trinta e três por cento mais baixos do que imaginava-se até então, porque a medida do metro estava errada. Pesquisando os sistemas de medidas, encontrou erros no cálculo da curvatura da Terra, e que o que pensávamos ser um metro era, na verdade, um metro e meio. Portanto, deveria-se diminuir a altura de todos em um terço, e refazer todos os aparatos de medição, réguas, fitas etc. Somente os países com outros sistemas métricos escaparam da triste fatalidade de encurtamento global.
Sentindo-se rebaixados, amargavam essa questão antropológica e um tanto quanto filosófica. Será que a medida das roupas mudaria também? O gê passaria a ser eme, o eme a ser pê, o pê a ser pepê, e o pepê a ser beibiluque? ......... Péra, seria o contrário, não? Porque nesse sentido as medidas estariam aumentando mais ainda! Puxa, muito complicado. Crucial seria, portanto, um programa governamental para a redução geral e gradual dessas medições.
Citônio olhava para o mar celeste, só que estava meio triste, porque comprara uma camisa de presente para Trivela que agora poderia ficar grande... ele aprendeu a não tirar a etiqueta dos presentes.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Abdução

Citônio tinha uma colega, uma vizinha, mais ou menos da sua idade, no desfolhe dos treze anos. Ela, curiosamente, chamava-se Maria, e nada mais. A mãe era biruta e ela também não batia muito bem: alegavam que foram abduzidas. Credo. Citônio não acreditava muito, mas que era estranho era. Deixemos que ela, Maria, nos narre:

"Foi tudo muito embrulhoso. Estava catando feijão no chão da varanda, numa tarde abafada e desventante, com Caquí, nosso mico, no ombro. Lembro que estava usando o meu vestido mais fulera, com a bacia de feijão bem a minha frente. Foi tudo muito embrulhoso... Ouvi minha mãe miar: 'Mingau!' e a vi andando, suspirona, olhando esmeticamente os horizontes. Chamei-a, mas ela me afastou com os olhos vidrados. Debruçou-se na beirada e não fiz nada; caiu, e não fiz nada; e quando olhei ela não estava nem no céu, nem no chão. Então, senti os capêlos da nuca empreriçarem, e uma liscívica excitação percorreu-me o corpo. Meu vestido parecia flutuar, mas podia ser o vento; e meus cabelos também flutuaram, e meus pés também. Aí tudo ficou da cor de mingau! Ouvi catarolarem um frevinho, mas a música era outra. Acordei numa mesa de operações, e estava frio, e nua. Percorri o lugar com os olhos, mas não vi nada. Então vi um ser de corpo enfinado, usando óculos enormes e espelhados; dedos compridíssimos. Ele disse: 'No hay banda' e depois vi que vestia uma coisa tipo camisa escrito NÃO TENHO CERTEZA, em neon. Dormi e sonhei num carro conversível que fazia cocô enquanto avançava um sinal...
Acordei, ainda nua, deitada na varanda, com a bacia de feijões ainda embraçada pelas minhas pernas, porém com todos os feijões já catados e com os cabelos roxos - como ficariam para sempre. Esqueci meu nome - que era Cassandrina - e também minha mãe, por isso nos rebatizamos. Foi tudo muito embrulhoso..."

Citônio não acreditava muito, mas que era estranho era. Até porque os cabelos de Maria Cassandrina eram realmente roxos.
Citônio aprendeu a sempre desconfiar de pessoas com nomes suspeitos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sustos

Os melhores amigos de Citônio chamavam-se Trivela e Zepelin. Ela, colecionadora de latinhas de refrigerante e jogadora de futebol; ele, líder do cineclube no colégio e comunista brechtiniano. Os dois viviam um caso secreto que Citônio desconhecia e se encontravam dizendo que iam na biblioteca ou no bebedouro, enquanto, na verdade, se escondiam no subsolo para namoros de treze e catorze anos, respectivamente.
Citônio só começou a perceber alguma coisa estranha na festa de quinze anos do Paracelso, um colega redondinho que fazia malabares com facas, tochas e seus três rãmisters, ao mesmo tempo. A casa dele não era tão grande e, mesmo tendo chegado juntos, Citônio não encontrava com Trivela desde que ela fora no banheiro retocar a maquiagem e não esbarrava com Zepelin desde que ele saira pra amarrar os sapatos ao ar livre. Rodando da sala para a varanda, da varanda para o quarto e do quarto para a cozinha, Citônio passou quase meia hora na pista dos dois. Encontrou-os entrando novamente na casa, Trivela com menos maquiagem do que antes, embora Zepelin parecesse mais rosado. Quando lhes perguntou o que fora, ela disse que foi checar o que Zepelin estava fazendo... Citônio, que estava de olho em Loirelinda - que dançava Na Boquinha da Garrafa - deixou pra lá o incidente.
Não voltou a pensar no assunto até o dia em que foi fazer um dever na casa de Trivela. Por conta dessas causalidades inexplicáveis, Citônio acabou vendo-a nua em pêlos quando abriu o armário, a procura de folhas de rascunho e giz de cera, e, por mais que tenha desviado rapidamente o olhar no primeiro susto dos dois, não teve como não reparar nela naqueles instantes de segundo. Foi então que percebeu que ela estava namorando com alguém, porque, desde que fizera aquele curso de desenho de modelos vivos (em que só comparecia nos dias de modelos femininos), aprendera a reconhecer as mulheres solteiras das casadas ou envolvidas em relacionamentos. Ela se justificou, dizendo que no seu quarto do apartamento em que morava antes, ela tinha um closet, o que permitia que ela se trocasse trancada, mas que, agora, ainda não conseguira se acostumar à ideia de armário apertado. Citônio, no entanto, não prestava muita atenção, mas lembrava-se da festa de Paracelso e das saídas estranhas e repentinas para a sala de artes na hora do recreio...
Citônio aprendeu a dançar funk.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Duas da tarde na Cinelândia

Sempre que Citônio dizia no colégio que escrevia poesia, chamavam ele de viado. "Poesia é coisa de viado." Demorou quase três meses pra Citônio perceber que é verdade. (Não é à toa que estou escrevendo um conto, forma bem mais máscula de redação). Mas demorou mais ainda pra ele perceber que poesia tem muito mais a ver com internar coisas do que com externar. Feito isso, foi à Biblioteca Nacional, tirar direitos autorais sobre certos poemas primorosos seus. Chegando nas escadarias pedrosas da fachada, avistou ninguém mais, ninguém menos do que a gatinha mais gostosa da escola: Loirelinda, filha de um diretor da Globo, casado com uma professora e chefe de departamento de alguma ciência aí na UFRJ.
Inspirado pelos deuses mais sacanas de todos os credos do mundo, mais todos os brasileiros, encantou-se com a ideia estapafúrdia de uma belíssima intervenção urbana: a leitura declamada e apaixonada - e apaixonante, quem sabe? - de um de seus poemas, para ela, a musa cor-de-rosa em chortinhos diins, de pernas delgadas e fosforecentes, que subia, rebolante e lentamente, os degraus. O "soneto dos caramujos" lhe pareceu conveniente, ao que se enjoelhou no esquerdo, pos a mão ao peito, e declamou-o com voz de ganso.
No segundo verso já se arrependera, mas achou melhor não parar no meio, talvez fosse ainda pior. O fato é que percebeu que todos pararam a sua volta, com risos escorrendo pelas caras, e puxavam celulares e máquinas para registrar o acontecimento tão logo ele se iniciara. Havia até mesmo um, chamado Duracel, que já estava filmando a coisa antes dela começar! Mas, de todos, somente Loirelinda não reparara, e continuara com seus passos bambos de calopsita até adentrar no saguão da biblioteca.
Citônio terminou a recitação sob uma ovação desconcertante de várias pessoas e lhe pediram mais um, e depois mais um, e depois mais outro, ao fim do qual anunciou que, para mais, procurassem o blog dele.
Atordoado, pegou o metrô e voltou para casa, sem registrar uma só poesia.
Ainda que não tivesse conquistado Loirelinda, Citônio passou a ser dono de um dos blogs mais badalados (diferente deste aqui) e os vídeos todos foram para internet - o de Duracel foi o com mais vistos, porque era o único completo.
Citônio aprendeu que ajoelhar-se não favorece a voz e que dói o joelho, além de sujar as calças.