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sexta-feira, 19 de abril de 2013

um poema verdadeiro?

o poema verdadeiro só pode ser escrito
pelas mãos canhotas de um suicida
ensimesmado.

pio de nano-passarinho que ainda não sabe voar
Voar. Isso não se aprende com ninguém
ou seja, não me interessa o que os outros podem dizer

todas as manhãs quando acordo
demoro pra lembrar quem eu sou
as vezes não lembro e saio
todo dia sendo vocês

várias vezes nenhuma pessoa
Silêncio. Aprendi na porrada
no empurrão do galho mais alto
era a morte ou o silêncio.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Acontece

Sem amigos, irmãos, namorada
Sem eira, nem beira,
Sem nada.

Nem um piscar de adeus
Nem eu e você,
Nem você, nem eu.

O nada aconteceu
Sem final romântico
Sem estrelas, só o Atlântico.
O verão inverneceu.

O que me aconteceu?
Seu seio virou palma.
Nem tripas, nem alma,
Sem você, sem eu.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

soneto sem sonho

O almirante olhava a onda do mar
batendo no casco do seu navio
como suspiros em um rodopio
talhando com sal o seu navegar

E chorou com um suspiro assobio
serenando as saudades do seu solo
-descobridor, gaúcho, marco polo
atravessando o mar como quem navega um rio

Toda a prata, pau-brasil ou mesmo ouro
lhe eram avessos do maior tesouro
que, enterrado, nunca reaveria

Em cima, a cruz marcava feito um xis
lembrando que ali foi feliz
uma amada que, sem sonhar, dormia

terça-feira, 13 de julho de 2010

Poemeto Nordestino

Fui batizado de lonjuras
esse cisco arteiro do olho
que vai pro cabelo e gera piolho

o palhaço, que traz no rosto um novelo
sou eu com mais abotoaduras
e a máscara, lavada de lágrimas, virando um molho
é o começo das lonjuras que falei no começo

do gesto de passaredo, não me esqueço
os novelos do meu rosto, num enredo
enredam minha postura

e, qual planta que não conheço
faço do céu meu credo
desenraizo da terra dura
e adoentado de asas padeço

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Azar

Sobrevoando esses prédios
pensava que iria cair
tenho vertigem, sabe

mas doença sem remédio
é a miopia do existir
nos devaneios de ave.

Apassarinhando as cotovias
sou acotovelado sem par
já que a vida era de sorte ou azar
pra passarinho que não via

Essa é a moderna miopia
do desencontro de um par:
o sorteio ocular
do que ontem inda existiria

Acróbio, o poeta de calçada

segunda-feira, 22 de março de 2010

Irmão, meu irmão

Irmão, irmão meu
filho de mesma mãe e pai
cresce, esquece, e vai
não pense no que já morreu

Vamos viver dos amores
das cantigas de Orfeu
subindo, sozinhos, nos nossos sofreres
ao mais alto andar dos arranha-ceús

Entendo os seus quereres,
caprichado e zeloso irmão,
mas é hora de andar na contra-mão.

Ergue esse rosto bretão!
Espalhemos nossas mentes, sementes,
qual Cosme e Damião.

sábado, 6 de março de 2010

A rima que falta

Encaixa perfeitamente
no espaço lhe dado ali,
no verso lha dado em mim,
poema que sigo em frente.

É a rima do de repente
que vivo quando te vi
na valsa dessa ciranda,
na dança desse repente.

Sussura-se tu daqui;
na volta, sou todo ida;
que falta tenho de ti!

Declamo-me todo a ti:
te amo, rima perdida,
a rima que falta aqui...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O tímido apaixonado (ou Soneto de um castor)

Eu sou um homem de lata
com passos de tanajura
Eu sou um bêbado errante
preso na própria sucata,

preso na minha tortura
de coração viajante.
O que é isso que falta
na minha interna rasura?

Notas de um verde tocante
perfuram minha armadura
inventam um coração

Corta-me a corda vibrante
tendão da minha cultura,
pexeira de Lampião.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Amor mimetisado

Eu fotografei aquele cheiro
assim que ele foi exalado:
o cheiro do amor, fotografado.

E ela se sentiu fotografada
quando sentiu o cheiro do meu amor
e a minha foto a amá-la.

Às treze horas e trinta e um minutos passados
nos seus olhos vi meu cheiro, em sentidos
e nos meus olhos, o seu cheiro, em abrigos:
os nossos olhos desencontrados.

E quando nossos olhos forem achados
olhando cada um pro seu umbigo
que tirem outra foto desse amor contido:
o amor do cheiro fotografado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A República

Formei o meu canto
o meu respirar
como uma pasárgada.

Ai, ai, queria voar
pro meu recanto
onde todos são amigos.

E lá, nas serestas
nas serelas, serenatas,
sergipes, ser-tudo!
Seria maravilhoso.

Tudo se resolveria
na minha república
fechados na caixa
dos olhos de nostalgia.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Soneto às nuvens

As nuvens são as flores do verão
que desabroxam quando especiais
E os detalhes mais superficiais
exageram com líquida atenção

Cada pingo na palma de uma mão,
cada poça que deixam para trás
refletem suas águas siderais
as nuvens que viajam pelo chão

Nuvem mais linda, feita do silêncio
chega tão serena, só que no cio
e rosna com seus trovões de alegria

Sinto o teu cheiro de eterna ressaca
e em teus raios de luz, feito faca
rasgo em pedaços minha fantasia

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Estética

A menina que é vermelha
subiu no alto de uma árvore
com seu pirulito cor-de-rosa
e seu vestido cor-de-telha

É tão doce o mel da abelha
e é tão doce o seu sorrir
que transforma em poesia, prosa
e faz o dia, rubro, ir dormir

Lá no alto, a menina, tão nova
tão vermelha e bonita e libidinosa
lambia lentamente o pirulito

como a chuva lhe lambia o corpo
E o corpo, que caía e gemia
na poça, treme, sorri e jaz morto.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Assinalado

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema,
A terra é sempre tua negra algema,
Prende-te nele a extrema desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, de pouco a pouco,

Na natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Souza

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Dores

Que há comigo?
Com essas roupas, com esses trapos
Sujos velhos, escrotos.

Contorcer-ser dói
Me aperto, estou preso! Amarrado, amordaçado
Que há comigo?

Essacordachegaadoer
Chegarasgar
Espremetudoquesinto
Assimtudorrasga

Gritosespremidosnascavernassemeco
Floresmortasporessesgritos
Meusseustodosnossas
dores

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Meu último soneto

Não sei, muitas vezes pra onde olhar,
me perco nos detalhes mais sutis
das mais sutis indiferenças
que tem cheirinho de saudade

Recorre, a mim, a suprema nostalgia
da noite, das crianças, de tudo
Só quero desenhar mais uma vez,
com o giz de cera da cor preferida

Queria correr no pátio da escola
e brincar de verdade e consequência;
queria pular do teto e cair no chão

Porque criança tem sete vidas e não morre
Deveria não morrer, pelo menos
Ai, o que eu daria pra não ter mais estes dedos

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Soneto dos meandros

Estou perdido e sem amigos
Numa bolota apertada,
Que não cabe com minhas fotos
E filmes de infância.

A vida sem vida me causa ânsias
E me perco nos cantos, nos lados,
Nas reentrâncias
Da minha apertada cachola.

Das fotos de escola,
Não lembro o nome de ninguém
Porque não me importo.

Perdido nessa bola,
Nesse planeta de extravagâncias
Vivo do que é mais além.