O fôlego lívido;
olhares de malandro,
lapidando, lupinos,
as mulheres da Lapa.
O laço da Bela;
os lábios bicam,
qual brumas batendo a lua,
marisia lambendo a manhã.
A lua do lobo;
as línguas,
bacantes bêbadas,
libertam-se loucas!
Levanta, Baco e suas mênades,
as leveduras dos vibrantes vinhos!
Viola os lábios inquilinos,
o vão lascivo da tua alma!
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
O tímido apaixonado (ou Soneto de um castor)
Eu sou um homem de lata
com passos de tanajura
Eu sou um bêbado errante
preso na própria sucata,
preso na minha tortura
de coração viajante.
O que é isso que falta
na minha interna rasura?
Notas de um verde tocante
perfuram minha armadura
inventam um coração
Corta-me a corda vibrante
tendão da minha cultura,
pexeira de Lampião.
com passos de tanajura
Eu sou um bêbado errante
preso na própria sucata,
preso na minha tortura
de coração viajante.
O que é isso que falta
na minha interna rasura?
Notas de um verde tocante
perfuram minha armadura
inventam um coração
Corta-me a corda vibrante
tendão da minha cultura,
pexeira de Lampião.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Esse grão
Havia um grão de areia
dentro da calça dele
e é sobre isso
que essa poesia vai tratar.
Havia um punhado de gente no mar
um montão de areia na praia
mas um único grão
no calção dele.
Havia uma ciranda tranquila no ar
um canto de bicho no céu
uma boca abrindo num beijo
no banco da praça, ali perto.
Mas quero falar desse grão.
Que ninguém via, que ninguém
- nem ele - sentia
que era perdido do mundo.
Ele vinha de uma praia das Antilhas
mas já passara pelo susto
do fundo do mar
e por um deserto, na Europa.
Correra nos ventos alíseos
secara a garganta de um índio
e viajou no cabelo de um hippie
cruzando os montes andinos.
Sonhava visitar Nova Iorque;
queria ver a neve de perto
e tocar as nuvens!
Era um nefelibata, coitado.
Para onde iria aquele grão?
E depois, passaria por que reinos,
por que estações, que povos?
Ninguém poderia dizer...
dentro da calça dele
e é sobre isso
que essa poesia vai tratar.
Havia um punhado de gente no mar
um montão de areia na praia
mas um único grão
no calção dele.
Havia uma ciranda tranquila no ar
um canto de bicho no céu
uma boca abrindo num beijo
no banco da praça, ali perto.
Mas quero falar desse grão.
Que ninguém via, que ninguém
- nem ele - sentia
que era perdido do mundo.
Ele vinha de uma praia das Antilhas
mas já passara pelo susto
do fundo do mar
e por um deserto, na Europa.
Correra nos ventos alíseos
secara a garganta de um índio
e viajou no cabelo de um hippie
cruzando os montes andinos.
Sonhava visitar Nova Iorque;
queria ver a neve de perto
e tocar as nuvens!
Era um nefelibata, coitado.
Para onde iria aquele grão?
E depois, passaria por que reinos,
por que estações, que povos?
Ninguém poderia dizer...
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
A Seca
Eu bebi o tutano dos ossos do sertão
Eu bebi a própria seca
Eu bebi os sem-terra,
os sem-teto, os sem-tudo.
Eu bebi o vento vazio
bebi a vazante do rio
bebi o vagante vadio
e o esterco da gralha.
Eu bebi o som do guizo
Eu bebi a roça rude
e o retalho de uma mortalha
Eu bebi o riso.
Eu bebi o trinar do açude
e dos passarinhos
curió, canário, pintinho
Eu bebi o beijo dos costumes.
Eu bebi o suco dos legumes
da seriguela, do suor, do sol
Bebi o silêncio da praça;
bebi cigarro e cerveja.
Eu bebi cereja e acerola
Eu bebi a própria desgraça
Eu bebi o azul e o branco
e bebi o canto e as estrelas
E, então, eu bebi o trovão.
E todos eles sairam sedentos
De suas casas
Olhando, com olhos suados,
O céu
E a serenata da zabumba do trovão
E todos eles beberam, sedentos,
Da chuva cheirosa do sertão.
Eu bebi a própria seca
Eu bebi os sem-terra,
os sem-teto, os sem-tudo.
Eu bebi o vento vazio
bebi a vazante do rio
bebi o vagante vadio
e o esterco da gralha.
Eu bebi o som do guizo
Eu bebi a roça rude
e o retalho de uma mortalha
Eu bebi o riso.
Eu bebi o trinar do açude
e dos passarinhos
curió, canário, pintinho
Eu bebi o beijo dos costumes.
Eu bebi o suco dos legumes
da seriguela, do suor, do sol
Bebi o silêncio da praça;
bebi cigarro e cerveja.
Eu bebi cereja e acerola
Eu bebi a própria desgraça
Eu bebi o azul e o branco
e bebi o canto e as estrelas
E, então, eu bebi o trovão.
E todos eles sairam sedentos
De suas casas
Olhando, com olhos suados,
O céu
E a serenata da zabumba do trovão
E todos eles beberam, sedentos,
Da chuva cheirosa do sertão.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Transcedência
Uma vez,
queimei a minha roupa
com a guimba de um cigarro que encontrei
na rua
e me fiz uma pira com ela
e fiquei pelado, olhando pra ela.
Sentado.
E quando o fogo
apagou
eu rolei nas cinzas
e me vesti de novo.
queimei a minha roupa
com a guimba de um cigarro que encontrei
na rua
e me fiz uma pira com ela
e fiquei pelado, olhando pra ela.
Sentado.
E quando o fogo
apagou
eu rolei nas cinzas
e me vesti de novo.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O Descante de Arlequim
A Lua ainda não nasceu.
A escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu.
De amôres frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro,
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, pulido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
A escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu.
De amôres frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro,
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, pulido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
Manuel Bandeira
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Amor mimetisado
Eu fotografei aquele cheiro
assim que ele foi exalado:
o cheiro do amor, fotografado.
E ela se sentiu fotografada
quando sentiu o cheiro do meu amor
e a minha foto a amá-la.
Às treze horas e trinta e um minutos passados
nos seus olhos vi meu cheiro, em sentidos
e nos meus olhos, o seu cheiro, em abrigos:
os nossos olhos desencontrados.
E quando nossos olhos forem achados
olhando cada um pro seu umbigo
que tirem outra foto desse amor contido:
o amor do cheiro fotografado.
assim que ele foi exalado:
o cheiro do amor, fotografado.
E ela se sentiu fotografada
quando sentiu o cheiro do meu amor
e a minha foto a amá-la.
Às treze horas e trinta e um minutos passados
nos seus olhos vi meu cheiro, em sentidos
e nos meus olhos, o seu cheiro, em abrigos:
os nossos olhos desencontrados.
E quando nossos olhos forem achados
olhando cada um pro seu umbigo
que tirem outra foto desse amor contido:
o amor do cheiro fotografado.
Assinar:
Postagens (Atom)