segunda-feira, 27 de junho de 2011

Invenção sobre o vento

Olho no reflexo
das gotas de apuros.
Meu olho é complexo
conjunto desses muros

A natureza morta
passa em passos presos
tanto tímida, quanto corta
meus dedos, velhos novelos

Meu labirinto, tem porta de entrada
A tempestade é que faz o caminho
por dentro de mim, repinta meu ninho
e pela saída só deixa a pegada

Da chuva, o vento me invade
esvazia meu ventre
vela essa voz
e sussurra esse solitário suspiro

Qual bailarina de furacão
A vida se revolta
- são ventos de revolução

As ondas viram viagem,
as rimas viram balão

E de vento em vento,
inventa-se uma solução.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O despertar da primavera

Tudo recomeçou no Despetar da Primavera. Como todo mundo sabe, essa é uma peça super transgressorazinha, cheia dos lances sexuais e castrações de pais autoritários, suicídio etc e tal. E a maioria das pessoas fica sinceramente tocada depois que assiste, muda a vida, troca de nome, ou de sexo até. Já vi um que passou a usar uma venda transparente pro resto da vida. Cada macaco no seu galho. Quando Citônio e Arquimedes, seu professor de acordeon, saíram do espetáculo, no entanto, tiveram uma disenteria braba e juraram nunca mais voltar ao teatro em anos bissextos.
A semana teria transcorrido normalmente, não fosse a prova de carpintaria marcada pra quarta-feira, que Citônio não estudara patavina, afinal, os dias de sol eram raros naquela época do ano, e ele estava esperando as chuvas voltarem a alagar a cidade para, preso dentro de casa, não ter outra opção que não meter a cabeça nos serrotes - não literalmente, claro.
Portanto, não era de se espantar que, depois de dias de sol alegre e fofolete no céu, Citônio fosse um dos únicos na sala depois de quase doze horas e meia de prova. A quarta-feira foi, coincidentemente, o primeiro dia de chuva depois de muito tempo. Faltando apenas dez minutos para o fim do exame, Citônio passou os olhos pela sala e reparou que estava sozinho com Loirelinda - que podia ser linda e loira, mas era burra como uma tábua - aliás, como A tábua que tentava serrar com o lado sem corte do serrote. Como até a professora, Sra. Bicho, já havia deixado a escola por conta do risco de inundação iminente, dizendo aos alunos restantes que não colassem e que deixassem suas cadeiras envernizadas em cima de sua mesa que ela recolheria no dia seguinte, Citônio se sentiu livre para desrespeitar parte das ordens e orientar Loirelinda na sua ridicula tentativa de criar uma tábua menor (a cadeira envernizada estava longe de ser atingida).
Aquele era, com certeza, o momento de maior proximidade que os dois já tinham passado - antes havia sido uma vez que ela sentara sem querer ao seu lado no ônibus e dormira caindo em seu ombro e babando em seu casaco. Ela agradeceu gentilmente a ajuda oferecida por Citônio, ele se aproximou, sentindo seu aroma de camomila, pegou o serrote e, másculo como um bombeiro, serrou a tábua ao meio. O sinal indicando o fim da prova tocou e os dois arrumaram suas coisas em silêncio, sentindo, ambos, um friozinho na barriga, como aqueles que prenunciam o momento em que a agulha vai entrar na sua veia num exame de sangue.
Qual foi a surpresa cheia de contradições que tiveram quando perceberam que estavam presos no colégio devida à chuva, que fizera o rio elevar doze metros de seu leito até os muros da escola e os ratos nadarem em formações migratórias em busca de terra firme. O temporal estava forte e pequenas pedrinhas de gelo começaram a tamborilar sobre o telhado de zinco e sobre as telhas de amianco da portaria. O frio espalhou-se como cheiro de gás, o granizo acumulava-se pelo pátio e os dois voltaram para a sala em busca de lenha para uma fogueira. Como ainda queriam passar na prova, pegaram as cadeiras dos outros colegas para alimentar as chamas. Loirelinda tremelicava como um gago e encolheu-se entre os braços de Citônio para aquecer-se, que, como todo bobo apaixonado, manteve-se na mesma posição por mais que seus ísquios doessem terrivelmente.
E foi assim que eles deram o primeiro beijo: Citônio foi lentamente abaixando a cabeça e Loirelinda foi lentamente fingindo que não percebia nada, até que seus rostos lentamente se aproximaram e ela sussurrou lentamente: "me beija, melchior". Ele lentamente fingiu que não ouviu, e suas línguas lentamente se enrolaram.
Citônio aprendeu a nunca descrer no teatro.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O que ela diz quando o vento chora

Aquilo que entorta o mundo,
que entorna os mares;
a nave que voa fundo
e que aspira o céu.

Move-me a ventania do coração;
alma penada e rima perdida -
duna do corpo, suada e lambida:
move-me o vento dessa prisão

Bailarina de furacão,
a vida se arrepia
na brisa ou na ventania
no sopro ou no tufão

E a nota se faz batida
e o ritmo se faz noção
quando o choro do vento vem vindo
cheio de premonição

Então, a vida se revolta
São ventos de revolução!
As ondas viram viagem,
as rimas viram balão

E de vento em vento,
inventa-se uma solução.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Bandeirante e a Caipora - Canto II: Sina do Mundo

Era o dia da partida:
não tem volta, a vida é ida.
No aceno não tinha adeus,
só o desejo dos pés seus.

Tinha a estrada nos olhos
E, estradando, tinha estrada
até no cu dos fundilhos.
Era no meio do nada.

Parda paisagem poeira:
O império passo apressado
pesava no paraíso

pois do porte da sujeira
era o primeiro passado
que empurrava o caraíba

Portanto, se por si pensa
Repense o próprio pensar:
Pior com pior, condensa
melhor não ver e marchar.

Dito e feito fez o homem
bicho gingando apressado
lugar que vai não tem nome
melhor que Predestinado

Solitário como olhar,
tão triste como um trinado
de um pássaro sem voar

bicho de olho furado,
tem mundo, mas não o mar;
livre, mas engaiolado.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.
Cecília Meireles

domingo, 14 de novembro de 2010

O Bandeirante e a Caipora - Canto I: Saudação

Quais mistérios guarda
nossa pátria gorda,
virgem como freira,
freira como fada?

Bandeirante cego
entra nessa mata
guia-lhe o vento,
cantos, cheiros, nadas

Andarilho roto,
nordestino pobre
traz um punhal torto
e um cantil de cobre

Faces definidas
pelo sol ardente
olhar de valente
branco igual caatinga

Herói de cordel
nem deus nem diabo
- tem fogo no rabo
e lugar no céu.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Suavíssima

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma...

Fica-se longe, quase morta, como ausente...
Sem ter certeza de ninguém... de coisa alguma...
Tem-se a impressão de estar doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente...

Os galos cantam, no crepúsculo dormente...
Tão para lá!... No fim da tarde... Além da bruma...

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma...

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma...
E os galos cantam, no crepúsculo dormente...

Cecília Meireles