Acho um estojo de plástico para guardar cds e nele encontro os cds que eu copiava há muitos anos, como muitos faziam: Nirvana, Acabou Chorare, 4, do Los Hermanos, The Wall 1 e 2, Blind Guardian, Foxtrot, Dave Brubeck, Dorival, Gil etc. O estojo é de plástico com um gel colorido dentro que fica boiando, mas que agora secou, como sangue coagulado, e está muito nojento. Tem um furo pequeno por onde formam bolhas laranjas também. É muito nojento mesmo. Acho que esse estojo reflete um novo paradigma dos gostos musicais na minha geração. Desculpem. Acho que qualquer raciocínio que se sustenta numa tendência de uma geração, especialmente uma que se declara "a sua geração", um raciocínio bastante estúpido. Desculpem. Acho que é força de expressão, ou talvez porque as pessoas correntemente se expressam assim. Veio sem querer. Bom, meu ponto é que hoje em dia gostos musicais não se baseiam mais em estilos, gêneros ou bandas. É incomum alguém se colocar apenas como fã de rock ou samba. Acho que hoje em dia as pessoas se organizam por playlists - como você desenvolve seu apuro musical tem mais a ver com a ordem certa das músicas pra cada ambiente ou situação diferente que propriamente com a música ser boa ou ruim. Digamos, uma relativização. Ou uma análise bem pós-moderna dos gostos, que não se interessa tanto pela estrutura do objeto, mas mais por seu lugar. Sei lá. E também tem esses revivals incompreensíveis: agora tipo Kurt Cobain ou Cássia Eller ou um pouco ainda o Tim Maia. Eu também acho que sou assim, porque gosto desses três e de fato estou ouvindo um pouco mais dos três nesses últimos meses e agindo como se fosse fã deles desde sempre, o que sei que não é verdade.
Mas esse não é o ponto.
Estou gripado. Não propriamente gripado, quer dizer, não sei se é gripe, mas estou espirrando muito, e quando espirro arranha a garganta e estou também com muito catarro e nariz escorrendo. Daí eu faço um chumaço de papel higiênico e arrolho a narina que está pior pra não ter que ficar assoando a cada minuto, não só porque é chato, mas também porque já estou com as pontas das narinas vermelhas de tanto assoar, uma espécie de DST naso-faríngica.
Mas esse não é o ponto, tampouco.
Estou sozinho no meu quarto. Pertenço a uma classe média abastada, não propriamente rica, quer dizer, que não gosta de se dizer rica - ainda que provavelmente pertença ao 1% mais rico da população - porque reconhece seus próprios limites financeiros, e, sei lá, a maioria dos meus amigos é visivelmente mais rico que eu, e eu não viajo pra Miami e nem tenho tudo dessas coisas triviais que o consumismo nos faz desejar, tipo um computador foda, ou sei lá, roupas pra todos os lados, essas trivialidades, enfim, essa classe média alta que viaja uma vez por ano e gosta mais da europa que dos estados unidos e sonha fazer coisas que nunca faz. Em tempo. Moro com meus pais - ou seja, já não tão abastado, porque adoraria morar sozinho, quer dizer, não sozinho, mas sair da casa dos meus pais, mas falta grana minha pra isso. Mas também talvez eu não me esforce tanto, ou talvez eu prefira continuar trabalhando com o que eu amo, apesar de não me oferecer qualquer renda decente, do que trabalhar em algo indecente que me ofereça uma grana obscena. Piadas... De qualquer forma, aqui eu moro, com meus pais, meu irmão mais novo, minha avó senil que anda de sutiã pela casa e pensa que ainda mora no interior de São Paulo, e uma legião de empregadas domésticas com funções diferentes, mas que basicamente estão aqui pra salvar minha avó de si mesma, caso ela decida levantar as 3 da manhã e subir as escadas atrás da cachorra ou qualquer coisa do tipo, e pra fazer faxina, e pra cozinhar porque ninguém aguenta cozinhar pra tanta gente se não estiver sendo pago pra isso; ou seja, uma espécie de círculo vicioso de vínculo empregatício, ou talvez, uma microeconomia baseada no capital dos meus pais mais pensão da vovó (que tinha avô militar, esses machismos militarismos bizarros que a gente aceita quando vêm a nosso favor, claro, não tá fácil pra ninguém, nem pra classe média abastada insegura) onde um emprego só faz sentido por conta do outro: só existe uma cozinheira porque alguém precisa fazer comida pra arrumadeira, pras duas enfermeiras e pra minha avó (e, uma vez que já tem cozinheira, pro resto da família também, claro), e só existe arrumadeira, porque tanta gente assim numa mesma casa faz muita sujeira e bagunça, e assim por diante...
Ainda não é meu ponto, mas acho que estou chegando lá.
Minha janela está aberta, o vento balança minhas cortinas (novas), e a obra em frente está gemendo um pouco mais baixo porque deve ser horário de almoço. Os dias têm ficado mais suportáveis porque é outono - talvez daí a minha proto-gripe. Explico: vivo no Rio de Janeiro, mais precisamente, na zona sul, em Botafogo. Bairro de classe média abastada e insegura, não é uma Ipanema, ou Leblon ou Gávea, todos sabem, mas também não é Barra (num outro sentido), e nem Zona Norte. Também não é Tijuca, zona sul da zona norte. Enfim. Essas análises são todas muito preconceituosas, mas temos que partir as vezes de certos discursos genéricos para se fazer entender em certos pontos. Os bairros têm uma identidade - dizer que não seria cometer a generalizacão da relativizacão, ou uma espécie de morte por osmose, sei lá. Bom, também não sei onde queria chegar com esse ponto - apenas me lembrei que ontem mesmo uma amiga muito querida (acho que mesmo ela não sabe o quanto eu gosto dela) me dava carona pra casa, daí perdemos o retorno e tivemos que fazer uma volta maior, passando então por uma praça que eu, que moro onde moro há muitos anos, sempre associei exatamente a uma espécie de retorno-adiante, enquanto ela, que mora por ali, me disse nunca ter usado aquela praça como retorno, que foi muito esquisito pra ela e tal. Ficamos então pensando como os lugares ficam carregados com esses pequenos afetos e memórias (obviamente totalmente pessoais, únicas, específicas etc e tal) criando uma espécie de teia muito bonita de possibilidades de relação, estou tentando evitar falar em conceitos nesses últimos tempos, me sentindo meio acadêmico demais, faz as pessoas olharem meio inseguras pra mim, sei lá, mas fiquei pensando nesses lugares como os rizomas e territórios de Deleuze, mas não só pensando, mas meio que sentindo isso muito fundo, como se de alguma maneira pudesse ali, então, enxergar essa beleza de possibilidades e potências em uma única praça-retorno, meio sem-graça até, eu chamava criança de "praça-dos-pombos" (um absurdo cartográfico, claro, por falta completa de especificidade).
O que acaba me trazendo de volta aos cds no estojo nojento de plástico, porque talvez o que me interessa não é exatamente parecer que sempre fui fã de Nirvana ou nem mesmo criticar aqueles que querem terem sempre sido fã de Nirvana, mas uma sensação viva de como esses significados podem sempre se relacionar no espaço e no tempo, de como essas noções - de espaço e tempo - precisam ser mais e mais entendidas para que com justiça possamos nos declarar sujeitos de ação, capazes de transformações (políticas mesmo, mas não só, também psicológicas, eu acho, posso estar falando besteira), uma coisa meio holística dos territórios. E por isso, apesar de ser incapaz de organizar melhor esse fluxo de pensamento (e percebendo que ele é deficiente, inconclusivo, incompleto, pouco claro, talvez bastante desinteressante até - sobre isso vocês vão ter que ser simpáticos comigo e tentar ao máximo ultrapassar esses obstáculos de linguagem) é que sinceramente sofro com as atuais políticas ditas progressistas de refabricacão da cidade e de seus potenciais simbólicos, como se alguém visse aquela rede e, sei lá, não só risse da nossa cara, dizendo que ela é uma rede muito pobre e feia, mas então, sei lá, mijasse em cima, escarrasse e depois dissesse que é pro nosso bem. Não sei... ainda não achei meu ponto, mas se for pra manter a imagem da teia vou ter que parar de procurar meu ponto e passar a lidar melhor com esses fluxos pontuais interrompidos.
segunda-feira, 13 de abril de 2015
sábado, 11 de abril de 2015
ciúmes
faz tempo que eu tenho qualquer coisa chamada sorte ou próxima disso ou mesmo muito tempo desde que sorrio incansavelmente por um acidente de percurso qualquer que inesperada e/ou ironicamente te cruza e destrói todo o seu pequeno mundo de tristezas de melancolia crônica e alumia os ecos das vértebras. A coluna oca respira cada partícula e o sorriso prende na pele mole da cara qualquer imprevisto, como dentes de tubarão, que se mexe pra respirar, que se perde turvo treme trinca com sangue nos olhos, quase literalmente. Estão acompanhando? Não tem imagem aqui, aqui são palavras sendo. Sério. Essa sorte esse milagre esse tempo essa travessia, não, não acontece tem muito muito tempo, e quando me toco disso, como uma masturbação triste, ejaculo cada uma dessas lágrimas mais grossas que sangue, e sinto como se o dia fosse frio e algum gigante me descascasse como uma espécie de batata podre - aquela miséria tão gosmenta e desprezível que dá até vergonha de encontrar pessoas, simplesmente a existência cessa e apenas somos uma pasta amorfa como catarro, sem sabor e sem sentido.
Isso tudo é ciúme.
Eu não posso me desvincular do que já sou pros outros por mais que me esforce, mesmo em casa, sem ninguém, continuo sendo essa cara abominável inominável determinada a ser sempre sua.
Isso tudo é ciúme.
Eu não posso me desvincular do que já sou pros outros por mais que me esforce, mesmo em casa, sem ninguém, continuo sendo essa cara abominável inominável determinada a ser sempre sua.
quarta-feira, 4 de março de 2015
seis partes
1. Entreouve-se no silêncio, ou eu imagino. E, como de praxe, hesita-se, evita-se, ainda que haja toque, disfarça-se, demora-se, pior, atrasa-se demasiado, perde-se, enfim. Não há causa ou efeito, apenas pena - enorme pena infundada enfiada afiada, faca, foie gras, assim, violento e deliciosamente perverso, terrível, incurável, como a necessidade de cagar.
E por isso eu sempre retorno. Vê? não tem causa, qualquer motivo que seja: é a simbiose do soco e da borboleta.
2.
flashback: Convidei-a pra assistir uma peça, ao que ela aceitou de pronto e, portanto, ericei-me acreditando-me sortudo e venturoso etc, normal. Equivoquei-me. Novamente normal.
3. Obrigatório mudar de marcha, alguma coisa errada nesse fluxo infernal de gases e confetes e surras e foliões e ruas e beijos e risos e alegria e então maravilhosamente a chuva e escuto novamente no silêncio essa loucura: paradoxo de amor. Comecei a chorar, que é como eu somatizo dúvida, é assim: fraqueza, tremeliques, silêncios longos. E você sendo vento fende lenta quente o largo. Como você molhada. Poderia mesmo dizer imunda.
4. Agora a paz é tanta que desaprendi o que é amar e cago todos os dias pontualmente. (Acuda)
5.
6.
E por isso eu sempre retorno. Vê? não tem causa, qualquer motivo que seja: é a simbiose do soco e da borboleta.
2.
flashback: Convidei-a pra assistir uma peça, ao que ela aceitou de pronto e, portanto, ericei-me acreditando-me sortudo e venturoso etc, normal. Equivoquei-me. Novamente normal.
3. Obrigatório mudar de marcha, alguma coisa errada nesse fluxo infernal de gases e confetes e surras e foliões e ruas e beijos e risos e alegria e então maravilhosamente a chuva e escuto novamente no silêncio essa loucura: paradoxo de amor. Comecei a chorar, que é como eu somatizo dúvida, é assim: fraqueza, tremeliques, silêncios longos. E você sendo vento fende lenta quente o largo. Como você molhada. Poderia mesmo dizer imunda.
4. Agora a paz é tanta que desaprendi o que é amar e cago todos os dias pontualmente. (Acuda)
5.
6.
domingo, 25 de janeiro de 2015
ensaios de carnaval
Tudo quer olhar você
E você vira o rosto
sorrindo
Sendo lindo maculelê
bailarina do oposto
sorrindo
E de lá sem te ver
Tudo teima desgosto
sorrindo
Outra volta volver
Seu sorriso é fosco
sorrindo
E você vira o rosto
sorrindo
Sendo lindo maculelê
bailarina do oposto
sorrindo
E de lá sem te ver
Tudo teima desgosto
sorrindo
Outra volta volver
Seu sorriso é fosco
sorrindo
domingo, 28 de setembro de 2014
yet not right there yet
há uma queda infinita depois daquela esquina
e se você não mordesse os lábios antes de mentir
eu teria caído atraído traído marido árido e ferido
acordar é sempre perder o mundo querido
como aquela esquina que esconde um buraco eterno
colado na sua testa não importa o quanto você ainda caia
antes de dormir a gente discute sobre nossas roupas
quando já não estamos enxergando bem de sono
eu já quase dormi e dormindo peço que você saia
acordado quero mil coisas que não alcanço
talvez porque podem ser contrários e autodestrutivos
como o gesto automático de dobrar esquinas
dormido fico repetindo o seu nome escrito num papel no bolso
e você aparece fixa como as fotos como memória
e não faz nada e sem nada fazer é simplesmente tudo
sem metáforas meias palavras sem roupas
nessa esquina você sussurra já bem próxima
você não fala não há som nem voz cor zero
eu sei o que você fala porque seus lábios estão colados nos meus
sussurro da pele como a lesma conversa com a pedra
e eu assinto sem entender nada de nada de nada
e se você não mordesse os lábios antes de mentir
eu teria caído atraído traído marido árido e ferido
acordar é sempre perder o mundo querido
como aquela esquina que esconde um buraco eterno
colado na sua testa não importa o quanto você ainda caia
antes de dormir a gente discute sobre nossas roupas
quando já não estamos enxergando bem de sono
eu já quase dormi e dormindo peço que você saia
acordado quero mil coisas que não alcanço
talvez porque podem ser contrários e autodestrutivos
como o gesto automático de dobrar esquinas
dormido fico repetindo o seu nome escrito num papel no bolso
e você aparece fixa como as fotos como memória
e não faz nada e sem nada fazer é simplesmente tudo
sem metáforas meias palavras sem roupas
nessa esquina você sussurra já bem próxima
você não fala não há som nem voz cor zero
eu sei o que você fala porque seus lábios estão colados nos meus
sussurro da pele como a lesma conversa com a pedra
e eu assinto sem entender nada de nada de nada
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
inspiração
Não dá pra fingir seja isso que insistem em negar; mas deseja. Deseja ser. E fica calado, de cara feia no canto querendo muito ser tantas maravilhosas possibilidades, não exatamente desgostoso do que é ou possa ser, não que seja também apenas uma singularidade, claro que não, mas a brisa de praia morna no dia de sol, quando você não espera que possa fazer tempo bom numa cidade tão merda, isso sim é algo não pensado, e daí novas teias de aranha, como as janelas de um arranha-céu, se abrem no espaço recolhido da mente, naqueles sei lá quantos porcento de cabeça nunca usados integralmente, germinam nos brônquios e alvéolos sombrios dos cantos do pulmão, viciados no gás carbônico de dezenas de anos - uma inspiração.
Pois nas profundezas de ser alguma baleia rasteja na lama submarina ou sobe enorme, majestosa, enorme para sorver aquela brisa fresca, fria e boa, num dia de sol, magnânima, de verme esponja dispersa como fumaça argentina, como tinta óleo apagando infinita no oceano, como uma molécula de álcool que se procura nos mares do mundo, até ser céu, astronômica, as ondas paredes d'água fria, a realeza baleia monstro assopra e inspira - tudo.
E linda submarino vivo lentamente regressa ao abismo, imigrantes na goela.
Aqui é o céu sagrado de estrelas de sóis e luas de toda constelação ou nuvem, aqui, nesse canto de paredes fechadas, na casa sem nascer do sol, aqui, onde meu coração para pra escutar os pulmões do cérebro chorarem e cada ponta, cada canto, cada ser se repete se reflete se repele como notas jogadas no universo, as vezes som, outras sentido - me beija astronauta.
E linda submarino vivo lentamente regressa ao abismo, imigrantes na goela.
Pois nas profundezas de ser alguma baleia rasteja na lama submarina ou sobe enorme, majestosa, enorme para sorver aquela brisa fresca, fria e boa, num dia de sol, magnânima, de verme esponja dispersa como fumaça argentina, como tinta óleo apagando infinita no oceano, como uma molécula de álcool que se procura nos mares do mundo, até ser céu, astronômica, as ondas paredes d'água fria, a realeza baleia monstro assopra e inspira - tudo.
E linda submarino vivo lentamente regressa ao abismo, imigrantes na goela.
Aqui é o céu sagrado de estrelas de sóis e luas de toda constelação ou nuvem, aqui, nesse canto de paredes fechadas, na casa sem nascer do sol, aqui, onde meu coração para pra escutar os pulmões do cérebro chorarem e cada ponta, cada canto, cada ser se repete se reflete se repele como notas jogadas no universo, as vezes som, outras sentido - me beija astronauta.
E linda submarino vivo lentamente regressa ao abismo, imigrantes na goela.
sábado, 5 de julho de 2014
seguinte
A bruta ideia sobreviver acorda toda cagada.
Sua. E, no parágrafo seguinte, é menos abstrata.
Seguinte: caminha pelas ruas todos os dias, bicho doméstico, frases convenientes, aquele papo todo, aquela história toda, insônia e tudo mais, música triste a vera, ironia, a lente da desdistorção, sabe?, esse sentimento arrogante (talvez) de presença mais elaborada, menos alienada, menos servil a um certo corpo sem-órgãos (vomitando tudo, ligou o foda-se legal), menos inconsciente das inconsciências possíveis, mas.
Seguinte: ajuda. Socorro. Socorro.
Seguinte: a terra vai girar em volta do sol muitas vezes ainda, e em cima dela o que? Precisa. Não dá, não é possível evitar a convulsão, o mijo cheio de sangue, coisa demais vazando, energia pra onde não deve, e de menos pra onde deveria, exaustão, desespero antes de dormir, de gritar, de berrar de horror pro escuro, pro medo da porra de. Overdose. Sobrecarga.
Seguinte: caminha pelas ruas de olhos abertos e atentos e procurando o que? Mesmo que não saiba, a busca é mais importante que o. Quê?
Seguinte: sim e não, tudo em círculos dentro do cérebro, uma festa inteira armada, luzes piscando, roupa linda, charmosa, elegante, e vazia - festa vazia, sem ninguém mesmo, bebe até esquecer, até sozinho habitar com tudo que uma festa tão bonita tem direito. A festa segue por um tempo, acredita que tudo bem, é assim que são as festas, uma hora alguém vai chegar. De duas, uma: alguém de fato chega, tipo muito atrasado, mas chega, veio, beleza, a festa vai começar pra valer agora, irado. Daí bifurca outra vez: a pessoa é foda, arrebenta, dança até o chão, caí dentro, trouxe coisas, acrescenta, a festa pode ser só isso; daí bifurca outra vez: pode ser maneiro isso ou não; ou quem chega finalmente tá fedendo, a roupa dele(a) é feia, estraga todo o clima das luzes, das músicas, do funk, não trouxe porra nenhuma e vai direto nas paradas caras, detona a porra toda, filho-da-puta, tava melhor sem ninguém, festa escrota da porra, que merda, caralho. Ou, de fato não vem ninguém, festa solitária. Segue.
Seguinte: quê?
Seguinte: ouvindo música enquanto conversa com alguém que adora no chat online do computador, a sua música diz sobre, capricha na escolha, funciona, ele(a) começa a adorar de volta, talvez, ou é só impressão, dúvida escrota, quem não queria não ter essa dúvida, hein galera? a dúvida tosca de insegurança amorosa que povoa toda a humanidade, tadinha. Caprichosa escolha de música swingada & romântica & descolada. Dúvida elementar do ser: sou legal? Segue.
Seguinte: abre a braguilha e sente o púbis alheio que romanticamente se deixa ser apalpado pela mão que lhe abre a braguilha das calças, pêlos cuidados, e o carro tem vidro fumê, sei lá como se chama essa porra, é vidro escuro, privacidade garantida, as poltronas foram puxadas pra trás, abriu-se um espaço algum pra isso, por enquanto é só a mão que abriu a braguilha e escorregou pelas roupas íntimas anteriormente escolhidas pelo dono(a), a mão acarinhou o tecido, deu meia-volta, mergulhou na superfície da pele coberta dos pêlos cuidados - péra! - não, volta, era outro tecido, mais fino, se enganou, ainda não é a pele, inesperada superfície nova por baixo da roupa íntima pré-escolhida, círculos com o dedo ali como quem diz, tá tudo sobre controle, e mergulha novamente para a lânguida superfície da pele, a epiderme rosa, não, outra roupa ainda, desce mais, mas tem outra merda de paninho, seda ou o caralho que for, que porra, mais um: ad infinitum.
Seguinte: programadores de informática comem lanches de fast-food dentro da sua limusine. Todo mundo sabe disso. Eles moram nelas. E fazem tudo ali. Cocô. Xixi. Tudo. Eles hackeiam sites de grandes corporações multinacionais que invadem países subdesenvolvidos fodidos e vendem canudos feitos de nicotina para a super-valorizada merenda das escolas públicas criando uma geração inteira de viciados. São os caras das limusines que nos salvam quando denunciam esses filhos-da-puta estupradores e eles não pedem nada em troca. São anjos, eles. Segue.
Seguinte: não adianta mais escrever, isso não salva, não. Qual história poderia contar, a da família de peludos, todos cobertos de pêlo, completamente, no rosto, nos membros, tanto os homens quanto as mulheres, cheios de pêlos e eles andam de quatro, a da pista de dança onde uma criança cai deslizando de joelhos no chão como um astro do rock ou um jogador de futebol depois de um gol antes dele ser anulado pelo banderinha (gay, sempre gay, certeza disso), e ela acha aquilo o máximo e desliza, sem sacar que as tábuas estão velhas e levanta ainda sorrindo e demora alguns segundos pra sacar que ralou completamente os joelhos e está escorrendo sangue por debaixo dos seus shorts até seus pés e aí ela vê e começa a chorar, caralho, fodi meus joelhos! ou qualquer outra coisa, não adianta. O que pode mais acontecer?
Seguinte: a música que ouvia não tinha nada a ver com alguém outro(a). Não, é sua. Tá sozinho, olha o horizonte, a cidade sifilítica ali embaixo lâmpadas acesas & sinais de trânsito & fosco reflexo de asfalto molhado, não tem tristeza maior que esse olhar que é realmente solitário, incompartilhável, pensa, e olha, permanece olhando, pra ver. Não vê. Não muda. Nada muda.
Seguinte: se contamina de qualquer tentativa, ainda que fraca, vã, tosca, ou ingênua, ou febril, ou adolescente, ou super sério, ou super intelectual, ou demais fechada, ou demais alegre, ou o que for, sendo mesmo o que tenta ser o que quer que isso seja, mas não, simplesmente não, quanto mais sim, mais não, e não o contrário, o não vem antes da frase terminar, simplesmente não, não, não adianta. E daí talvez não mesmo, ser isso, ser esse não, será?, o que seria isso?, mas antes de, não, também não.
Seguinte: caminha e olha e percebe e chora e ri e atenção e, querido(a), estou aqui falando super tudo isso aí, mesmo, totalmente, realmente, mesmo, e vem cá que eu te dou um chamego gostoso.
Sua. E, no parágrafo seguinte, é menos abstrata.
Seguinte: caminha pelas ruas todos os dias, bicho doméstico, frases convenientes, aquele papo todo, aquela história toda, insônia e tudo mais, música triste a vera, ironia, a lente da desdistorção, sabe?, esse sentimento arrogante (talvez) de presença mais elaborada, menos alienada, menos servil a um certo corpo sem-órgãos (vomitando tudo, ligou o foda-se legal), menos inconsciente das inconsciências possíveis, mas.
Seguinte: ajuda. Socorro. Socorro.
Seguinte: a terra vai girar em volta do sol muitas vezes ainda, e em cima dela o que? Precisa. Não dá, não é possível evitar a convulsão, o mijo cheio de sangue, coisa demais vazando, energia pra onde não deve, e de menos pra onde deveria, exaustão, desespero antes de dormir, de gritar, de berrar de horror pro escuro, pro medo da porra de. Overdose. Sobrecarga.
Seguinte: caminha pelas ruas de olhos abertos e atentos e procurando o que? Mesmo que não saiba, a busca é mais importante que o. Quê?
Seguinte: sim e não, tudo em círculos dentro do cérebro, uma festa inteira armada, luzes piscando, roupa linda, charmosa, elegante, e vazia - festa vazia, sem ninguém mesmo, bebe até esquecer, até sozinho habitar com tudo que uma festa tão bonita tem direito. A festa segue por um tempo, acredita que tudo bem, é assim que são as festas, uma hora alguém vai chegar. De duas, uma: alguém de fato chega, tipo muito atrasado, mas chega, veio, beleza, a festa vai começar pra valer agora, irado. Daí bifurca outra vez: a pessoa é foda, arrebenta, dança até o chão, caí dentro, trouxe coisas, acrescenta, a festa pode ser só isso; daí bifurca outra vez: pode ser maneiro isso ou não; ou quem chega finalmente tá fedendo, a roupa dele(a) é feia, estraga todo o clima das luzes, das músicas, do funk, não trouxe porra nenhuma e vai direto nas paradas caras, detona a porra toda, filho-da-puta, tava melhor sem ninguém, festa escrota da porra, que merda, caralho. Ou, de fato não vem ninguém, festa solitária. Segue.
Seguinte: quê?
Seguinte: ouvindo música enquanto conversa com alguém que adora no chat online do computador, a sua música diz sobre, capricha na escolha, funciona, ele(a) começa a adorar de volta, talvez, ou é só impressão, dúvida escrota, quem não queria não ter essa dúvida, hein galera? a dúvida tosca de insegurança amorosa que povoa toda a humanidade, tadinha. Caprichosa escolha de música swingada & romântica & descolada. Dúvida elementar do ser: sou legal? Segue.
Seguinte: abre a braguilha e sente o púbis alheio que romanticamente se deixa ser apalpado pela mão que lhe abre a braguilha das calças, pêlos cuidados, e o carro tem vidro fumê, sei lá como se chama essa porra, é vidro escuro, privacidade garantida, as poltronas foram puxadas pra trás, abriu-se um espaço algum pra isso, por enquanto é só a mão que abriu a braguilha e escorregou pelas roupas íntimas anteriormente escolhidas pelo dono(a), a mão acarinhou o tecido, deu meia-volta, mergulhou na superfície da pele coberta dos pêlos cuidados - péra! - não, volta, era outro tecido, mais fino, se enganou, ainda não é a pele, inesperada superfície nova por baixo da roupa íntima pré-escolhida, círculos com o dedo ali como quem diz, tá tudo sobre controle, e mergulha novamente para a lânguida superfície da pele, a epiderme rosa, não, outra roupa ainda, desce mais, mas tem outra merda de paninho, seda ou o caralho que for, que porra, mais um: ad infinitum.
Seguinte: programadores de informática comem lanches de fast-food dentro da sua limusine. Todo mundo sabe disso. Eles moram nelas. E fazem tudo ali. Cocô. Xixi. Tudo. Eles hackeiam sites de grandes corporações multinacionais que invadem países subdesenvolvidos fodidos e vendem canudos feitos de nicotina para a super-valorizada merenda das escolas públicas criando uma geração inteira de viciados. São os caras das limusines que nos salvam quando denunciam esses filhos-da-puta estupradores e eles não pedem nada em troca. São anjos, eles. Segue.
Seguinte: não adianta mais escrever, isso não salva, não. Qual história poderia contar, a da família de peludos, todos cobertos de pêlo, completamente, no rosto, nos membros, tanto os homens quanto as mulheres, cheios de pêlos e eles andam de quatro, a da pista de dança onde uma criança cai deslizando de joelhos no chão como um astro do rock ou um jogador de futebol depois de um gol antes dele ser anulado pelo banderinha (gay, sempre gay, certeza disso), e ela acha aquilo o máximo e desliza, sem sacar que as tábuas estão velhas e levanta ainda sorrindo e demora alguns segundos pra sacar que ralou completamente os joelhos e está escorrendo sangue por debaixo dos seus shorts até seus pés e aí ela vê e começa a chorar, caralho, fodi meus joelhos! ou qualquer outra coisa, não adianta. O que pode mais acontecer?
Seguinte: a música que ouvia não tinha nada a ver com alguém outro(a). Não, é sua. Tá sozinho, olha o horizonte, a cidade sifilítica ali embaixo lâmpadas acesas & sinais de trânsito & fosco reflexo de asfalto molhado, não tem tristeza maior que esse olhar que é realmente solitário, incompartilhável, pensa, e olha, permanece olhando, pra ver. Não vê. Não muda. Nada muda.
Seguinte: se contamina de qualquer tentativa, ainda que fraca, vã, tosca, ou ingênua, ou febril, ou adolescente, ou super sério, ou super intelectual, ou demais fechada, ou demais alegre, ou o que for, sendo mesmo o que tenta ser o que quer que isso seja, mas não, simplesmente não, quanto mais sim, mais não, e não o contrário, o não vem antes da frase terminar, simplesmente não, não, não adianta. E daí talvez não mesmo, ser isso, ser esse não, será?, o que seria isso?, mas antes de, não, também não.
Seguinte: caminha e olha e percebe e chora e ri e atenção e, querido(a), estou aqui falando super tudo isso aí, mesmo, totalmente, realmente, mesmo, e vem cá que eu te dou um chamego gostoso.
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