hoje descobri como vou morrer
me veio entre sonho e outro
em limbo de lucidez austral talvez
que vou morrer de tanto chorar
não acidente assassinato doença
nada disso que mata todos os dias
não tortura assédio enchente seca
nada disso que mata todos os dias
não descaso do governo fome tragédia ambiental
nada disso que mata todos os dias
não chacina fascismo facada assalto
nada disso que mata todos os dias
não incêndio tiroteio bomba fogo nos olhos do menor
nada disso que mata todos os dias
não ataque terrorista catástrofe tsunami tóxica
nada disso que mata todos os dias
não degola polícia câmera de gás
nada disso que mata todos os dias
não saudade crepúsculo ataque cardíaco
nada disso que mata todos os dias
não câncer corte ânsia sede
nada disso
suicídio olhar ouvir e ir e devir
ser todas suas causas mortis somentes
sozinhos em suicídio se apagando
morrendo de tanto tanto chorar
sábado, 14 de novembro de 2015
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
apnéia
Eu teria muito pra te contar do cativeiro - cheiro de urina e verniz e gasolina, texturas de paredes toscas, ásperas, trepidar e ricochete de geladeira de algum cômodo acima, cozinha provavelmente, torturas com choques elétricos e arrancar de unhas, cegueira, ridículo de chorar ou gritar ou espernear ou se inconformar, visitas frequentes de fantasmas, ânus, toca dos escritos, simples dor, talvez terra talvez não, acima o inferno, aqui a caverna, jogos de palavras, palavrões, bizarra disciplina perdedora de corpo e de mente, benção da água, língua, lágrimas, burburinho catatônico incessante da própria voz e de dentes seus, deformidade do corpo, imobilidade, jesus cristo, paladar de merda, cheiro dos órgãos, menos unhas que dedos, perda do medo e medo incessante... - entretanto talvez a terra na minha boca desfaça a aspereza dos fonemas, ou o trepidar dos lábios confunda as palavras, e de forma alguma eu quero transformar a complexa vida vívida vivida num ávido reflexo, num cuspe, num flashmob grotesco de insatisfação: talvez, portanto, eu precise desesperadamente dessa câmera, pra que ela seja a minha melhor arma, pra que ela mostre ao outro como eu o vejo, e principalmente, pra que toda lembrança do cativeiro - que revisito sempre nos pesadelos e nas filas do banco - seja revelada e mantida presa na minha jaula, como um frame na noite.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
desconfio
desconfio das festas que bombam demais ou por tempo demais ou que todo mundo ama nesse espaço estriado pouco claro que são as redes sociais e que tem mais confirmações do que caberia uma vez que parece que todos os eventos de sexta tem todo mundo confirmado em todos;
desconfio de quando me cumprimentam com muito carinho quando não me conhecem mas como se me conhecessem;
desconfio de pessoas que gritam ou falam muito alto ou não param de falar ou tem muita opinião assertiva sobre tudo numa noite em que só saí pra beber;
desconfio quando passam a mão na minha perna debaixo da mesa pode ter sido um esbarrão quem sabe;
desconfio de garçons que já chegam com a cerveja aberta na mesa ou já abriram antes de perguntar ou que não respondem perguntas direito;
desconfio de mesas muito grandes em que não está claro quem consumiu o quê especialmente quando eu não conheço nem metade das pessoas que estão ali sempre peço por fora ou arredondo pra baixo malandro malandro mané mané;
desconfio de bares point sem qualquer motivo aparente ou que o motivo é aparentemente estúpido;
desconfio da autoria das coisas que as pessoas postam não que eu me importe com autor mas quero saber quem fez mesmo;
desconfio mesmo de qualquer um que fale qualquer coisa sobre qualquer coisa pra mim é difícil falar alguma coisa então desconfio;
desconfio de (certas) risadas também;
desconfio de comerciantes que tem cara de que inventam um preço pra cada pessoa mas acho que isso é geral;
desconfio de caipirinhas de rua mas confesso que sempre tomo e não me arrependo;
desconfio de pessoas que usam "na verdade";
desconfio de gatos mesmo os fofos talvez principalmente os fofos visto que geralmente gatos são fofos;
desconfio (muito) de mauricinhos que estão na mesma roda/mesa/etc que eu;
desconfio de moradores de rua e depois me sinto um merda preconceituoso não vou levar isso adiante e depois desconfio da minha atitude auto-consciente vitimizante passiva olho pra frente ponho a mão no bolso se ele levantar eu corro mas tentar sacar se é realmente um lance violento ou não antes de correr etc eu sou tão menor que essas questões e simultaneamente tão biologicamente envolvido;
desconfio de boa parte dos políticos, empresários, CEOs, presidentes de multinacionais, basicamente todo mundo que aparece vestido de terno em jornais;
desconfio mesmo de quem usa terno;
desconfio de quem acorda muito cedo pro trabalho;
desconfio de trabalho;
desconfio de quem acha que arte é pra se expressar ou pra comunicar;
desconfio mais que tudo de mim mesmo diante de situações em que eu pareço estar respondendo automaticamente a novas perguntas (as perguntas são sempre novas quando refeitas é preciso re-respondê-las) usando de conceitos fixados em grupos de semelhantes incapaz de generosidade para os outros e extremamente desconfiado e arrogante.
desconfio de quando me cumprimentam com muito carinho quando não me conhecem mas como se me conhecessem;
desconfio de pessoas que gritam ou falam muito alto ou não param de falar ou tem muita opinião assertiva sobre tudo numa noite em que só saí pra beber;
desconfio quando passam a mão na minha perna debaixo da mesa pode ter sido um esbarrão quem sabe;
desconfio de garçons que já chegam com a cerveja aberta na mesa ou já abriram antes de perguntar ou que não respondem perguntas direito;
desconfio de mesas muito grandes em que não está claro quem consumiu o quê especialmente quando eu não conheço nem metade das pessoas que estão ali sempre peço por fora ou arredondo pra baixo malandro malandro mané mané;
desconfio de bares point sem qualquer motivo aparente ou que o motivo é aparentemente estúpido;
desconfio da autoria das coisas que as pessoas postam não que eu me importe com autor mas quero saber quem fez mesmo;
desconfio mesmo de qualquer um que fale qualquer coisa sobre qualquer coisa pra mim é difícil falar alguma coisa então desconfio;
desconfio de (certas) risadas também;
desconfio de comerciantes que tem cara de que inventam um preço pra cada pessoa mas acho que isso é geral;
desconfio de caipirinhas de rua mas confesso que sempre tomo e não me arrependo;
desconfio de pessoas que usam "na verdade";
desconfio de gatos mesmo os fofos talvez principalmente os fofos visto que geralmente gatos são fofos;
desconfio (muito) de mauricinhos que estão na mesma roda/mesa/etc que eu;
desconfio de moradores de rua e depois me sinto um merda preconceituoso não vou levar isso adiante e depois desconfio da minha atitude auto-consciente vitimizante passiva olho pra frente ponho a mão no bolso se ele levantar eu corro mas tentar sacar se é realmente um lance violento ou não antes de correr etc eu sou tão menor que essas questões e simultaneamente tão biologicamente envolvido;
desconfio de boa parte dos políticos, empresários, CEOs, presidentes de multinacionais, basicamente todo mundo que aparece vestido de terno em jornais;
desconfio mesmo de quem usa terno;
desconfio de quem acorda muito cedo pro trabalho;
desconfio de trabalho;
desconfio de quem acha que arte é pra se expressar ou pra comunicar;
desconfio mais que tudo de mim mesmo diante de situações em que eu pareço estar respondendo automaticamente a novas perguntas (as perguntas são sempre novas quando refeitas é preciso re-respondê-las) usando de conceitos fixados em grupos de semelhantes incapaz de generosidade para os outros e extremamente desconfiado e arrogante.
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
A difícil tentativa de dar uma opinião polêmica
Escorrendo sobre as margens de lodo da lagoa, o restaurante chique estilo modernoso-rústico meio pra gringo e pra moradores muito ricos - aquele tipo de morador rico que, ou gosta de passar por gringo, ou assume um estilo de em-viagem, um certo padrão visual internacionalmente tido como elegante, quer dizer, algo que, assume-se, qualquer pessoa, pelo menos qualquer ocidental, vai achar agradável, modernoso, rústico, elegante etc. Na mesa mais afastada do bar, com pouca iluminação, digamos algo que poderiam chamar de romântico-modernoso-rústico, dois homens desse padrão, não sabemos se gringos ou se passando por gringo ou isso tudo aí, conversam entre doses de drinques que não sabemos o nome - são drinques delicados, refrescantes sempre, com cores não tão vivas e hortelã, em taças miúdas, bem miúdas, com tanto gelo que deve ter pouco a se beber efetivamente. Mas não sabemos - não frequentamos muito esse tipo de restaurante.
Um dos homens veste camisa social preta com um botão aberto por cima de um blaser verde musgo bem escuro de veludo revestido internamente por um tecido listrado verde clarinho e branco muito delicado, não sabemos dizer qual tecido, pensamos em seda, mas depois pensamos que talvez seda seja um pouco demais, nem mesmo sabemos se se fabricam blasers assim, veludo com seda, um pouco surreal, mas talvez não, não sabemos mesmo, é um blaser bem elegante e de corte impecável, o que nos faz pensar que é feito sob medida (mas não sabemos). Esse homem é careca assumido - raspa o pouco de cabelo que por ventura ainda cresça - e usa óculos quadrados de aros de plástico vermelho. Não vemos suas pernas, mas sua posição sugere que estejam cruzadas em pose elegante, enquanto casualmente beberica de leve seu drinque azul.
O outro homem veste camisa social azul com mangas dobradas até a altura dos cotovelos, dois botões abertos no peito, ainda possível ver os vincos da dobradura da camisa nas laterais dos braços e no ombro e duas linhas ao longo do peito em paralelas que coincidem com as longitudes de seus mamilos (invisíveis claro, estamos assumindo aqui uma aproximação, uma possibilidade bastante provável que, pra efeitos de humor, queremos levar à cabo - supor precisa simetria entre dobradura de camisa e mamilos nos soa divertido). Seu blaser, menos elegante, mais ordinário (íamos dizer "mais dia-a-dia" com a acepção de que parece ser uma peça de trabalho do segundo homem, mas depois "mais dia-a-dia" nos pareceu impreciso - vamos prosseguir e refletir sobre a possibilidade de "mais dia-a-dia"), e apóia sua bolsa-maleta ao seu lado - tudo sugerindo que este homem veio para o restaurante imediatamente após o trabalho diário. Tem cabelos cheios e despenteados, olhos grandes, mãos grandes, pele notadamente mais branca que a de seu colega, e também jeitos menos sofisticados, menos elegantes, o que nos parece indicar que a sugestão desse restaurante veio do primeiro homem, do mais elegante, de fato, "faz mais a cara" daquele (expressão aqui empregada não apenas pra indicar essa semelhança de gosto, mas também num gesto irônico de que o primeiro homem quase se camufla como peça de decoração: suas roupas combinam-se perfeitamente com as almofadas dos bancos, tanto em textura quanto em tonalidade).
Não comem. Bebericam drinques. Conversam.
É difícil de engolir.... difícil mesmo. Eu não sei o que te dizer agora, mas também não vou dizer que concordo. Apenas... entendo.
É porque estou certo - por isso você não tem resposta.
Me soa terrivelmente misógino, acho...
Não, justamente o contrário - todo esse mundo de ideologias, de sistemas, de, se me permite colocar nesses termos, uma vontade de razão, tudo isso, é fruto dessa forma-pensamento que utilizamos, é fruto da nossa sociedade macho branco heterossexual ocidental capitalista, entende?
Mas é um sofisma grosseiro incluir o feminismo nessa conta, ou seja, o que surge como oposição à esse sistema...
Claro que é possível incluí-lo: o feminismo atua de forma a incluir certas práticas dentro dessa sociedade, atua pela inclusão, seja de direitos, ou de leis.
Ou seja, de maneira a transformar essa sociedade pra melhor, pra curá-la de pelo menos um de seus preconceitos...
Talvez, mas foi você mesmo que colocou a questão - de como mesmo em ambientes, digamos, 100% feministas, totalmente pró a inclusão das mulheres nos mercados de trabalho, nos ambientes que lhes foram cerceados por tantos séculos, mesmo ali, resta uma impressão de que elas não executam tão bem quanto um homem...
Não foi isso que eu disse.
Foi o que você falou, você falou do seu departamento, das mulheres no seu departamento...
Falei justamente pra enfatizar o quanto ainda temos que avançar, que mesmo num ambiente aparentemente aberto a mulheres, ainda restam...
Não, não, não estou questionando isso - isso é claro: a nossa inclusão parcial está bem longe de ser ideal, mas você mencionou - pelo menos assim entendi - que você não achava que as mulheres do seu departamento eram tão brilhantes, que você tinha a impressão de que elas estavam no lugar errado, porque aquilo seria de certo modo uma função de um homem - você mesmo comparou: seria como se criassem uma cota para mulheres em um campeonato de esporrada à distância...
Fala baixo. Você está eufórico. Calma.
Perdão... bom, você colocou dessa maneira.
Sim, eu disse - disse que certas funções não foram pensadas pra serem executadas por mulheres, são espaços totalmente masculinos, mas isso não quer dizer imediatamente que sejam machistas. - ao contrário, digamos que existe mesmo uma espécie de homoafetividade intensa nesses espaços. Nas Forças Armadas, por exemplo.
Sim! Exatamente. O meu ponto, se me permite uma metáfora, é que é como se nós estivéssemos jogando esse enorme jogo, cujas regras foram escritas por homens, e que era exclusivo aos homens - brancos heterossexuais ocidentais etc - jogá-lo. E agora, vemos todas essas minorias reclamando seu direito de jogá-lo. Justo, claro - mas elas se esquecem de que as regras foram feitas por homens para homens, eles serão sempre os melhores jogadores, esse é o jogo deles, eles vão ganhar sempre...
Mas eles querem mudar as regras também! Para que elas os contemplem também! Estão subindo ao Congresso, estão aprovando novas leis, estão mudando o jogo por dentro...
Não, você não está acompanhando. A própria ideia do Congresso etc, de como o Estado atua, de qual seu papel na sociedade, enquanto sujeito, entende?
Não, acho que você está propondo uma espécie de revolução, mas sendo extremamente preconceituoso com todas essas minorias que você diz estar levando em consideração. Não existe política nisso que você diz, apenas palavras fortes. Apenas ser do contra.
Os dois homens tornam a beber seus drinques elegantes sentindo a brisa leve e agradável de onde estão. Os drinques estão balanceadamente refrescantes, os gelos titilam alegremente (íamos dizer "como sinos de natal", mas depois nos pareceu uma expressão por demais jocosa, como se estivéssemos emitindo algum tipo de julgamento moral desse tipo de bebida e, por extensão, dos dois homens - não estamos), mas eles não chegaram a um entendimento.
Pedem a conta com um sinal e um gesto de mão-que-escreve-no-ar. Foi caro.
Um dos homens veste camisa social preta com um botão aberto por cima de um blaser verde musgo bem escuro de veludo revestido internamente por um tecido listrado verde clarinho e branco muito delicado, não sabemos dizer qual tecido, pensamos em seda, mas depois pensamos que talvez seda seja um pouco demais, nem mesmo sabemos se se fabricam blasers assim, veludo com seda, um pouco surreal, mas talvez não, não sabemos mesmo, é um blaser bem elegante e de corte impecável, o que nos faz pensar que é feito sob medida (mas não sabemos). Esse homem é careca assumido - raspa o pouco de cabelo que por ventura ainda cresça - e usa óculos quadrados de aros de plástico vermelho. Não vemos suas pernas, mas sua posição sugere que estejam cruzadas em pose elegante, enquanto casualmente beberica de leve seu drinque azul.
O outro homem veste camisa social azul com mangas dobradas até a altura dos cotovelos, dois botões abertos no peito, ainda possível ver os vincos da dobradura da camisa nas laterais dos braços e no ombro e duas linhas ao longo do peito em paralelas que coincidem com as longitudes de seus mamilos (invisíveis claro, estamos assumindo aqui uma aproximação, uma possibilidade bastante provável que, pra efeitos de humor, queremos levar à cabo - supor precisa simetria entre dobradura de camisa e mamilos nos soa divertido). Seu blaser, menos elegante, mais ordinário (íamos dizer "mais dia-a-dia" com a acepção de que parece ser uma peça de trabalho do segundo homem, mas depois "mais dia-a-dia" nos pareceu impreciso - vamos prosseguir e refletir sobre a possibilidade de "mais dia-a-dia"), e apóia sua bolsa-maleta ao seu lado - tudo sugerindo que este homem veio para o restaurante imediatamente após o trabalho diário. Tem cabelos cheios e despenteados, olhos grandes, mãos grandes, pele notadamente mais branca que a de seu colega, e também jeitos menos sofisticados, menos elegantes, o que nos parece indicar que a sugestão desse restaurante veio do primeiro homem, do mais elegante, de fato, "faz mais a cara" daquele (expressão aqui empregada não apenas pra indicar essa semelhança de gosto, mas também num gesto irônico de que o primeiro homem quase se camufla como peça de decoração: suas roupas combinam-se perfeitamente com as almofadas dos bancos, tanto em textura quanto em tonalidade).
Não comem. Bebericam drinques. Conversam.
É difícil de engolir.... difícil mesmo. Eu não sei o que te dizer agora, mas também não vou dizer que concordo. Apenas... entendo.
É porque estou certo - por isso você não tem resposta.
Me soa terrivelmente misógino, acho...
Não, justamente o contrário - todo esse mundo de ideologias, de sistemas, de, se me permite colocar nesses termos, uma vontade de razão, tudo isso, é fruto dessa forma-pensamento que utilizamos, é fruto da nossa sociedade macho branco heterossexual ocidental capitalista, entende?
Mas é um sofisma grosseiro incluir o feminismo nessa conta, ou seja, o que surge como oposição à esse sistema...
Claro que é possível incluí-lo: o feminismo atua de forma a incluir certas práticas dentro dessa sociedade, atua pela inclusão, seja de direitos, ou de leis.
Ou seja, de maneira a transformar essa sociedade pra melhor, pra curá-la de pelo menos um de seus preconceitos...
Talvez, mas foi você mesmo que colocou a questão - de como mesmo em ambientes, digamos, 100% feministas, totalmente pró a inclusão das mulheres nos mercados de trabalho, nos ambientes que lhes foram cerceados por tantos séculos, mesmo ali, resta uma impressão de que elas não executam tão bem quanto um homem...
Não foi isso que eu disse.
Foi o que você falou, você falou do seu departamento, das mulheres no seu departamento...
Falei justamente pra enfatizar o quanto ainda temos que avançar, que mesmo num ambiente aparentemente aberto a mulheres, ainda restam...
Não, não, não estou questionando isso - isso é claro: a nossa inclusão parcial está bem longe de ser ideal, mas você mencionou - pelo menos assim entendi - que você não achava que as mulheres do seu departamento eram tão brilhantes, que você tinha a impressão de que elas estavam no lugar errado, porque aquilo seria de certo modo uma função de um homem - você mesmo comparou: seria como se criassem uma cota para mulheres em um campeonato de esporrada à distância...
Fala baixo. Você está eufórico. Calma.
Perdão... bom, você colocou dessa maneira.
Sim, eu disse - disse que certas funções não foram pensadas pra serem executadas por mulheres, são espaços totalmente masculinos, mas isso não quer dizer imediatamente que sejam machistas. - ao contrário, digamos que existe mesmo uma espécie de homoafetividade intensa nesses espaços. Nas Forças Armadas, por exemplo.
Sim! Exatamente. O meu ponto, se me permite uma metáfora, é que é como se nós estivéssemos jogando esse enorme jogo, cujas regras foram escritas por homens, e que era exclusivo aos homens - brancos heterossexuais ocidentais etc - jogá-lo. E agora, vemos todas essas minorias reclamando seu direito de jogá-lo. Justo, claro - mas elas se esquecem de que as regras foram feitas por homens para homens, eles serão sempre os melhores jogadores, esse é o jogo deles, eles vão ganhar sempre...
Mas eles querem mudar as regras também! Para que elas os contemplem também! Estão subindo ao Congresso, estão aprovando novas leis, estão mudando o jogo por dentro...
Não, você não está acompanhando. A própria ideia do Congresso etc, de como o Estado atua, de qual seu papel na sociedade, enquanto sujeito, entende?
Não, acho que você está propondo uma espécie de revolução, mas sendo extremamente preconceituoso com todas essas minorias que você diz estar levando em consideração. Não existe política nisso que você diz, apenas palavras fortes. Apenas ser do contra.
Os dois homens tornam a beber seus drinques elegantes sentindo a brisa leve e agradável de onde estão. Os drinques estão balanceadamente refrescantes, os gelos titilam alegremente (íamos dizer "como sinos de natal", mas depois nos pareceu uma expressão por demais jocosa, como se estivéssemos emitindo algum tipo de julgamento moral desse tipo de bebida e, por extensão, dos dois homens - não estamos), mas eles não chegaram a um entendimento.
Pedem a conta com um sinal e um gesto de mão-que-escreve-no-ar. Foi caro.
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
Entrada
Nossa, eu conseguia sentir forte seu cheiro, como se você fosse a própria brisa do mar. Essas situações pedem depoimentos dramáticos, né? Realmente tem essas coisas que você só compreende essencialmente quando elas acontecem contigo - talvez a maioria das coisas - um conhecimento "corporal", "visceral", como costumam dizer, né? Como eu posso te explicar?
Começa pelo começo... (riso cheio de dentes brancos)
Poxa... bom, eu não queria usar a palavra "se apaixonar" porque ela é muito forte e muito usada vulgarmente como uma situação muito explosiva, romântica, né? Tem a ver com o que eu quero dizer... Bom, se você me permite uma digressão etimológica, acho que páthos é a parada que estou tentando achar, que é o radical de "apaixonar-se", né? É dessa "paixão" que eu queria falar, mas não queria que esbarrasse em "apaixonado", "apaixonada", pelo menos não por enquanto, me incomoda um pouco isso agora.
Tudo bem... vamos deixar de lado. (sorriso simpático)
Tá (sorriso sem jeito). É simples, é só que a gente praticamente não se conhece, nos conhecemos super randomicamente, bem aleatório, e eu estou curtindo pra caralho esse papo que estamos tendo, acho impressionante que tenhamos chegado tão fundo logo num primeiro encontro, né?
(sorriso com dentes, olhos fixos nos olhos)
Então, e comecei a sentir essa "paixão" difícil de descrever, uma coisa realmente corporal, vou até dizer fisiológica, entende?
(pausa) Tipo uma dor de barriga? (risos)
(risos) Não sei, talvez! (risos)
(risos)
(risos - pausa, olhar perdido, pensamento por trás dos olhos) Bom, não sei o que é, mas percebi que estava diretamente relacionado contigo, entende? Notei que é esse nosso papo tão fluido, né? tão fácil, tão difícil de se ter normalmente com uma pessoa estranha, e que isso me fazia muito bem e tive essa "compreensão corporal", tipo, meio que soube dentro de mim essa coisa que estou tentando te explicar, mas o mais importante é que é uma certeza, uma descoberta, feita pelo corpo.
(olhar interessado, talvez felino, talvez jeito sensual, talvez um botão da camisa se abriu sozinho, talvez dois)
(sorriso pálido de canto de boca, olhar apreensivo, talvez volátil, talvez tropeçando eventualmente em peito recém descoberto, ligeiro gaguejar, tentativa de disfarçar) E o mais estranho é justamente o que eu estava te dizendo que não gosto muito da ideia de "se apaixonar", acho uma coisa criada, "amor romântico", entende? Acho que projetam esse tipo de coisa na vida, mas a vida não é assim, né? E a coisa é levada a um nível absurdo, de "amor à primeira vista", entende?
Eu já me apaixonei a primeira vista. Eu não esperava muito que rolasse, mas rolou, e foi incrível, uma sensação de proximidade difícil de descrever...
Tipo coisa de filme, assim?
Tipo mais que isso. Tipo, em filme é apenas o momento de se conhecer, eles sempre terminam o filme quando o casal meio que se firmou e pronto - "felizes para sempre", ou alguma coisa parecida com isso que tem esse efeito. Mas isso o que eu estou falando é do próprio relacionamento explosivo que a gente teve. Foi curto e intenso. Foi muito importante pra mim. (rearruma-se, talvez note botões demais abertos, talvez feche apenas um)
É, acho que você entende, então, o que eu estou tentando descrever. Essa sensação corporal, esse páthos intenso de um encontro significativo com alguém, ou que te confere significado de algum modo, quer dizer, não significa nada, mas não é esse o ponto, o ponto é o encontro intenso, a conexão, né?
Sim... (sorriso)
Pois foi isso que eu senti, que estou sentindo ainda... e começo a desconfiar que talvez seja apaixonar-se, talvez seja amor a primeira vista, talvez seja isso tudo que eu sempre recusei, combati até... (proximidade, momento crítico, inclina-se para beijo)
(não se inclina, mantém olhar, não se reclina tampouco)
(apreensão, certa dúvida, agora não tem mais volta, inclina-se para beijo pra valer)
(aceita todo novo toque, recusa beijo olhando pro lado quando lábios quase colam)
(pensamentos por trás dos olhos, inclinar-se se torna abraço, respira fundo)
(recebe abraço, pausa, desfaz abraço, sorriso miúdo sem dentes, talvez mais dois botões se abriram, talvez note e feche apenas um)
(talvez note peito redescoberto, talvez certo grau de desejo sexual primário)
(pausa) Olha, é que eu não senti tudo isso que você falou...
Não, claro, não era esse meu ponto também... Aliás, acho que foi bastante exagerado o que eu falei.
Sobre a gente estar se dando tão bem num primeiro encontro?
Não, sobre apaixonar-se, entende? Tipo, não acredito muito nisso, é o que eu estava te dizendo, é uma coisa inventada, vendida, muito naturalizada, mas tem data de nascimento, poetas do século XIII ou XII, não sei bem... (olhar pro chão, ou pra longe, ou pra qualquer lugar exceto o outro olhar)
Sim, na Ocitânia.
Começa pelo começo... (riso cheio de dentes brancos)
Poxa... bom, eu não queria usar a palavra "se apaixonar" porque ela é muito forte e muito usada vulgarmente como uma situação muito explosiva, romântica, né? Tem a ver com o que eu quero dizer... Bom, se você me permite uma digressão etimológica, acho que páthos é a parada que estou tentando achar, que é o radical de "apaixonar-se", né? É dessa "paixão" que eu queria falar, mas não queria que esbarrasse em "apaixonado", "apaixonada", pelo menos não por enquanto, me incomoda um pouco isso agora.
Tudo bem... vamos deixar de lado. (sorriso simpático)
Tá (sorriso sem jeito). É simples, é só que a gente praticamente não se conhece, nos conhecemos super randomicamente, bem aleatório, e eu estou curtindo pra caralho esse papo que estamos tendo, acho impressionante que tenhamos chegado tão fundo logo num primeiro encontro, né?
(sorriso com dentes, olhos fixos nos olhos)
Então, e comecei a sentir essa "paixão" difícil de descrever, uma coisa realmente corporal, vou até dizer fisiológica, entende?
(pausa) Tipo uma dor de barriga? (risos)
(risos) Não sei, talvez! (risos)
(risos)
(risos - pausa, olhar perdido, pensamento por trás dos olhos) Bom, não sei o que é, mas percebi que estava diretamente relacionado contigo, entende? Notei que é esse nosso papo tão fluido, né? tão fácil, tão difícil de se ter normalmente com uma pessoa estranha, e que isso me fazia muito bem e tive essa "compreensão corporal", tipo, meio que soube dentro de mim essa coisa que estou tentando te explicar, mas o mais importante é que é uma certeza, uma descoberta, feita pelo corpo.
(olhar interessado, talvez felino, talvez jeito sensual, talvez um botão da camisa se abriu sozinho, talvez dois)
(sorriso pálido de canto de boca, olhar apreensivo, talvez volátil, talvez tropeçando eventualmente em peito recém descoberto, ligeiro gaguejar, tentativa de disfarçar) E o mais estranho é justamente o que eu estava te dizendo que não gosto muito da ideia de "se apaixonar", acho uma coisa criada, "amor romântico", entende? Acho que projetam esse tipo de coisa na vida, mas a vida não é assim, né? E a coisa é levada a um nível absurdo, de "amor à primeira vista", entende?
Eu já me apaixonei a primeira vista. Eu não esperava muito que rolasse, mas rolou, e foi incrível, uma sensação de proximidade difícil de descrever...
Tipo coisa de filme, assim?
Tipo mais que isso. Tipo, em filme é apenas o momento de se conhecer, eles sempre terminam o filme quando o casal meio que se firmou e pronto - "felizes para sempre", ou alguma coisa parecida com isso que tem esse efeito. Mas isso o que eu estou falando é do próprio relacionamento explosivo que a gente teve. Foi curto e intenso. Foi muito importante pra mim. (rearruma-se, talvez note botões demais abertos, talvez feche apenas um)
É, acho que você entende, então, o que eu estou tentando descrever. Essa sensação corporal, esse páthos intenso de um encontro significativo com alguém, ou que te confere significado de algum modo, quer dizer, não significa nada, mas não é esse o ponto, o ponto é o encontro intenso, a conexão, né?
Sim... (sorriso)
Pois foi isso que eu senti, que estou sentindo ainda... e começo a desconfiar que talvez seja apaixonar-se, talvez seja amor a primeira vista, talvez seja isso tudo que eu sempre recusei, combati até... (proximidade, momento crítico, inclina-se para beijo)
(não se inclina, mantém olhar, não se reclina tampouco)
(apreensão, certa dúvida, agora não tem mais volta, inclina-se para beijo pra valer)
(aceita todo novo toque, recusa beijo olhando pro lado quando lábios quase colam)
(pensamentos por trás dos olhos, inclinar-se se torna abraço, respira fundo)
(recebe abraço, pausa, desfaz abraço, sorriso miúdo sem dentes, talvez mais dois botões se abriram, talvez note e feche apenas um)
(talvez note peito redescoberto, talvez certo grau de desejo sexual primário)
(pausa) Olha, é que eu não senti tudo isso que você falou...
Não, claro, não era esse meu ponto também... Aliás, acho que foi bastante exagerado o que eu falei.
Sobre a gente estar se dando tão bem num primeiro encontro?
Não, sobre apaixonar-se, entende? Tipo, não acredito muito nisso, é o que eu estava te dizendo, é uma coisa inventada, vendida, muito naturalizada, mas tem data de nascimento, poetas do século XIII ou XII, não sei bem... (olhar pro chão, ou pra longe, ou pra qualquer lugar exceto o outro olhar)
Sim, na Ocitânia.
quinta-feira, 23 de julho de 2015
O Rio quer se tornar Ibiza
Tenho que admitir que tenho estado muito muito interessado em te matar, assim, é uma ideia que tem me passado muito pela cabeça, sabe? Sem drama, não quero que isso pareça querer dizer nada, e sem nenhum rancor também. É só que está cada vez mais frequente eu me pegar longas horas imaginando isso, idealizando formas, maneiras, um certo cenário, as vezes lentamente, outras um tiro na cabeça e fim, as vezes com tortura e tal. Sabe? Não, não, não tem por quê, você está sendo limitado, meio careta até, se me permite dizer, pensar numa causalidade; não é pra ser motivado, nem pra ser pensado como reação a nada, simplesmente é, sabe, "ser enquanto ser" ou algo desse tipo. Não sabe? Achei que você já tivesse lido Heidegger, não? Eu mesmo nunca li li, só assim, de passagem, alguns trechos de Ser e Tempo numa aula de mestrado que eu fiz uma vez na Filosofia. Foi ótimo. Você nunca escutou essa expressão "ser enquanto ser"? - nem sei exatamente se é essa expressão, pra ser honesto, mas... viu? Você nem conhece a expressão, sabe, esse é o tipo de coisa que as vezes eu penso em te dizer quando me imagino te prendendo numa cadeira e cortando a sua orelha, tipo Cães de Aluguel, mas conseguindo te queimar vivo sem que me matem antes, eu estaria bem atento a isso no momento, claro, seria bizarríssimo que eu tentasse emular uma cena de um filme, nessa onda a-realidade-que-tenta-representar-a-imagem-e-não-o-contrário, e realmente surgisse inesperadamente alguém e me matasse antes de te queimar exatamente que nem no filme. Bom, de qualquer forma, você ainda estaria sem orelha - e eventualmente seria morto mais tarde, né? - o que me reconforta um pouco, devo dizer... Você já viu Cães de Aluguel, eu presumo... Como não, cara? Caralho, você é muito alien - quer dizer, eu me sinto muito alien a maior parte do tempo, mas isso pra mim é bizarro, Cães de Aluguel é super batido, todo playboy assiste e diz que é o melhor filme do mundo, ou sei lá, Bastardos Inglórios... Sim, o que o Hitler morre no cinema. Pelo menos esse você viu. Gostou? Não? Porra, eu acho foda. Bem irado, pra ser honesto. Mas, bom, o que estava dizendo é que eu tenho cada vez mais imaginado essa situação de homicídio cruel, sempre bastante cruel, com níveis de perversidade radioativos, saca, e passo horas pensando nesses detalhes obscenos, e como evitar que você se desvencilhe da tortura ou que eu seja eventualmente pego ou morto, como nessa cena do Cães de Aluguel que você não viu, mas de um modo geral eu sempre acabo achando que eu vou ser pego, que vai ficar na cara que fui eu, sabe? Tipo, na real, parece que o que realmente me impede de executar, de te matar ridiculamente, de te empalar ou, sei lá, qualquer coisa muito muito cruel, é só mesmo o medo da represália depois. Que nenhuma educação de nenhuma ordem me tirou essa vontade estúpida de te torturar sem qualquer causa aparente. Você acha que tem causa? De novo acho que você está sendo meio careta... Eu sei, ok, uma possível "causa" inconsciente, mas, tipo, eu revisitaria essa sua pseudo-psicanálise ou sei lá de onde você tira essas noções, porque eu não acho que toda aparente loucura ou esquizofrenia seja automaticamente recalque ou algum "complexo" de castração ou apenas uma "pulsão de morte" ou "patrocínio" - epa, quer dizer... como é mesmo?, assassinato do pai é...? Me escapou... Ah, você entendeu, aquela história toda de assassinato primordial e tal. Acho que pode até ser, e talvez o seja na maior parte dos casos hoje em dia, mas sempre também é mais que isso, e não acho que exista um tal estado saudável de sanidade que o Freud parece estar sempre propondo e tal... Ah, sim, eu concordo. É verdade. Sim, sim, acho que sim. É, por exemplo, quando eu era criança eu lia muito e detestava os livros da Lygia Bojunga, sabe? Daí adolescente eu tive uma releitura dela e achei maneiro essa pegada meio "temas adultos nos livros infantis", sabe? Achei maneiro bater de frente com essa moralização idiota do que deve ser produto para crianças, sempre um politicamente correto bastante idiota. Mas hoje em dia, eu detesto a Lygia Bojunga, não muito por qualquer atributo da sua obra, mas porque ela é uma dessas mantenedoras de "direitos autorais" e, sei lá, fez uma editora própria só pra não ter que "ceder os seus (ditos) direitos" e não deixa ninguém adaptar os livros dela pro teatro ou coisas assim, cheia de mimimi. Cara, eu detesto essa idiotice de direitos autorais, é uma cascata deslavada, pretensamente para "proteger os artistas" (o que quer que isso queira dizer), pretensamente um "direito", essas merdas todas - direito de imagem, direito autoral - é tudo inventado pra mercantilização da arte, apenas pra isso - e quando inventaram isso, isso que eu estou dizendo era a própria argumentação da parada, pros artistas fazerem dinheiro etc. sei lá. Mas hoje em dia as pessoas falam como se fosse um direito natural do ser humano, tipo, apelam pra Declaração Universal dos Direitos Humanos ou coisas nesse nível, sabe? É muita burrice. Mas do que a gente tava falando mesmo? Ah é, a importância da infância... é verdade, eu concordo com isso. Não sei dizer exatamente como, mas acho que sim. E traumas e tal. Concordo a vera... Mais uma? Caralho, aqui é caro pra cacete. Tá, pede mais uma, vou no banheiro.
Cara, desculpa voltar a isso, mas acho que a gente tem intimidade pra essas coisas. Cara, de novo, eu tava no banheiro, e cheio de merda e mijo pra todo lado - eu sempre abro a porta com o pé e tento dar descarga com o pé também, pra não encostar nessas superfícies super contaminadas - e eu pensei em te afogar no vaso ou alguma coisa bem escatológica assim; mas daí me lembrei que tem aquela viatura da polícia ali na frente daquela boate, então eu provavelmente seria pego e foi isso que meio que abortou a minha imaginação... Tá, a gente pode mudar de assunto, ok. Sim, sim, eu meio que ouvi falar. De relance. Uma parada meio homofóbica, não é? Ah, mas, cara, eu tenho duvidado muito dessas coisas que neguinho faz circular por aí, tipo bar homofóbico e tal, e daí você vai saber melhor o que rolou e descobre que os caras importunaram pra caralho por horas a fio e vieram na moral pedir pra baixar o tom, daí rolou baixaria e porradaria, e daí é imediatamente "homofobia", tipo de argumentação fácil e pobre; ou chama qualquer tipo de ato contrário de "fascista", mais pela força da palavra, pra acabar de vez com o cara, porque ninguém vai querer se posicionar como fascista ou como homofóbico, claro - a não ser, lógico, fascistas e homofóbicos "assumidos", tipo um Bolsonaro, mas estou pensando numa galera menos abertamente fascista e que com certeza não se diz fascista - você meio que corta qualquer discussão sobre qualquer coisa deixando implícito que ser contra aquilo ou interferir ou abafar aquilo é ser automaticamente o oposto, ou seja, fascista, homofóbico, machista etc. sabe? Justamente. Justamente, e neguinho acaba entrando numa lógica de espetacularização da política, sem perceber que, essa sim, é uma estratégia, um modus operandi do fascismo, derreter a estética em política necessariamente, e não o contrário... Dilma. Nulo? Respeito, pensei muito no nulo, mas li uns artigos que o Chico Alencar postou na página dele tipo na semana antes do segundo turno e mudei de ideia. Mas não queria muito me alongar nisso... Vai lá, vai lá.
Não tá? Pois é, é grotesco, mas eu confesso que diversas vezes mijo randomicamente pra frente pela diversão de emporcalhar a parada, sabe? Movimentos brownianos de pau!
Cara, desculpa voltar a isso, mas acho que a gente tem intimidade pra essas coisas. Cara, de novo, eu tava no banheiro, e cheio de merda e mijo pra todo lado - eu sempre abro a porta com o pé e tento dar descarga com o pé também, pra não encostar nessas superfícies super contaminadas - e eu pensei em te afogar no vaso ou alguma coisa bem escatológica assim; mas daí me lembrei que tem aquela viatura da polícia ali na frente daquela boate, então eu provavelmente seria pego e foi isso que meio que abortou a minha imaginação... Tá, a gente pode mudar de assunto, ok. Sim, sim, eu meio que ouvi falar. De relance. Uma parada meio homofóbica, não é? Ah, mas, cara, eu tenho duvidado muito dessas coisas que neguinho faz circular por aí, tipo bar homofóbico e tal, e daí você vai saber melhor o que rolou e descobre que os caras importunaram pra caralho por horas a fio e vieram na moral pedir pra baixar o tom, daí rolou baixaria e porradaria, e daí é imediatamente "homofobia", tipo de argumentação fácil e pobre; ou chama qualquer tipo de ato contrário de "fascista", mais pela força da palavra, pra acabar de vez com o cara, porque ninguém vai querer se posicionar como fascista ou como homofóbico, claro - a não ser, lógico, fascistas e homofóbicos "assumidos", tipo um Bolsonaro, mas estou pensando numa galera menos abertamente fascista e que com certeza não se diz fascista - você meio que corta qualquer discussão sobre qualquer coisa deixando implícito que ser contra aquilo ou interferir ou abafar aquilo é ser automaticamente o oposto, ou seja, fascista, homofóbico, machista etc. sabe? Justamente. Justamente, e neguinho acaba entrando numa lógica de espetacularização da política, sem perceber que, essa sim, é uma estratégia, um modus operandi do fascismo, derreter a estética em política necessariamente, e não o contrário... Dilma. Nulo? Respeito, pensei muito no nulo, mas li uns artigos que o Chico Alencar postou na página dele tipo na semana antes do segundo turno e mudei de ideia. Mas não queria muito me alongar nisso... Vai lá, vai lá.
Não tá? Pois é, é grotesco, mas eu confesso que diversas vezes mijo randomicamente pra frente pela diversão de emporcalhar a parada, sabe? Movimentos brownianos de pau!
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Esperando um trem que vai te levar pra sempre
fica quieto um minuto.
cala a boca, na moral.
Esculpindo cada post
Modelando cada bosta
Cada merda, o negativo do intestino
Fica aqui comigo, querido
Olhando minhas costas
Ligando minhas pintas
só um segundo.
para de falar, porra.
Fica aqui comigo, querido
Chupando meu cuspe
Beijando minhas cartas
Olhando minhas costas
Ligando minhas pintas
Fica aqui comigo, querido
Como quem espera o trem pelado na estação
E vamos dançar com a nossa sombra
Até ela cansar
Fica aqui comigo, por favor
Ligando minhas pintas
Constelações das costelas e das costas
Encostando nesta vasta sensação
Como quem espera o trem pelado na estação
E vamos dançar com a nossa sombra
Até ela cansar
Ou até ficar tão nublado
Que ela vai sumir
cala a boca, na moral.
Esculpindo cada post
Modelando cada bosta
Cada merda, o negativo do intestino
Fica aqui comigo, querido
Olhando minhas costas
Ligando minhas pintas
só um segundo.
para de falar, porra.
Fica aqui comigo, querido
Chupando meu cuspe
Beijando minhas cartas
Olhando minhas costas
Ligando minhas pintas
Fica aqui comigo, querido
Como quem espera o trem pelado na estação
E vamos dançar com a nossa sombra
Até ela cansar
Fica aqui comigo, por favor
Ligando minhas pintas
Constelações das costelas e das costas
Encostando nesta vasta sensação
Como quem espera o trem pelado na estação
E vamos dançar com a nossa sombra
Até ela cansar
Ou até ficar tão nublado
Que ela vai sumir
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